Pular para o conteúdo principal

2004, um ano bem louco

Não sei dizer exatamente quando é que começou. Talvez a Copa de 2002 tenha sido um aviso. Por mais que as duas seleções mais vitoriosas da história, Brasil e Alemanha, tenham decidido o título, Turquia e Coreia do Sul chegaram as semifinais. Vimos a Coreia eliminar Itália e Espanha, a França cair diante do Senegal, a Argentina naufragar na primeira fase. Uma copa em que a zebra foi o padrão. Talvez tenha sido um aviso, mas nada como o ano de 2004. Esse foi um ano bem louco para o futebol.

O grande aviso mesmo aconteceu no dia 7 de abril de 2014. Naquele dia, o La Coruña meteu 4x0 no Milan e se classificou para a semifinal da Champions League. Um resultado bem improvável, uma vez que o time espanhol começava a entrar numa fase de declínio e o Milan ainda era uma das maiores potências europeias, os atuais campeões do torneio. Ainda mais improvável, porque o Milan havia dado um baile no jogo de ida, vencendo por 4x1, em grande atuação de Kaká. Ainda mais improvável, porque o Deportivo fez 3x0 (o placar necessário) no primeiro tempo.

Até aí, tudo bem. Zebras fazem parte do futebol. Acontece, que no dia anterior, o Mônaco havia eliminado o galático Real Madrid, de Figo, Zidane, Raul, Beckham e Ronaldo. Venceu o jogo de volta por 3x1, depois de ter levado de 4x2 em Madrid. Detalhe, ainda saiu perdendo por 1x0 e conseguiu três gols em vinte minutos. Para melhorar, o emergente Chelsea eliminou o melhor Arsenal da história (campeão inglês invicto naquele ano), com um gol no último minuto. E o Porto de um desconhecido José Mourinho eliminou o Lyon, depois de ter eliminado o poderoso Manchester United com um gol no último minuto, rebote de falta.

Depois o então favorito Chelsea caiu, assim como o La Coruña. Porto e Mônaco fizeram a final de Champions League mais excêntrica da história, terminando com o título português.

Para quem duvida que aquele foi um ano atípico no futebol, o Valencia derroutou o Real Madrid e o Barcelona de Ronaldinho para ser campeão espanhol, última vez que um time derrotou os dois gigantes. E ah, teve a Eurocopa.

Eurocopa que mostrou a seleção da Grécia derrotando Portugal na estreia do torneio. A Grécia eliminando a Espanha na 1ª fase. A Itália caindo na primeira fase. A Alemanha caindo na primeira fase, depois de empatar com a Letônia (!). Viu a Grécia chegar a final e levantar o título, sempre com gols em escanteios e retrancas monumentais, eliminando França, a sensação República Tcheca e Portugal, novamente na final, no Estádio da Luz com 62 mil patrícios.

Na América do Sul foi diferente? Não. O Once Caldas foi campeão da Libertadores. O time de uma minúscula cidade produtora de café da Colômbia foi avançando aos trancos e barrancos, com um goleiro horrível e jogadores limitados e conquistou o título ao vencer o Boca Jrs, nos pênaltis. Boca que sempre costuma a faturar disputas por penalidades, mas que errou todas as quatro cobranças. No final daquele ano, Once Caldas e Porto decidiram o Mundial de Clubes.

E no Brasil? O São Caetano foi campeão paulista derrotando o Paulista de Jundiaí na final. O Santo André se transformou na maior zebra da história da Copa do Brasil, ao derrotar o Flamengo no Maracanã lotado, 2x0, sendo que o 0x0 daria o título aos flamenguistas.

O espírito das zebras ainda seguiu até o ano seguinte, com o Paulista de Jundiaí conquistando a Copa do Brasil, o Ipatinga sendo campeão mineiro, o Volta Redonda ganhando a Taça Guanabara. Mas, logo as coisas voltaram a normalidade.

Agora, vem 2014. O Ituano ganha o campeonato paulista e podemos ver uma Libertadores com Nacional do Paraguai, San Lorenzo, The Strongest e Defensor nas semifinais. A zebra está de volta? Prenuncio de que a Copa vai ser surpreendente? Não sei. Acho que nunca mais haverá um ano como 2004.

Comentários

Postagens mais visitadas

Minha seleção da Copa 2026

Escalada no 4-2-3-1, no geral o esquema mais popular de início nessa copa. Goleiro - Bono (Marrocos): Unai Simon levou apenas um gol - dificilmente algum goleiro profissional teria feito pior. Dibu Martínez teve seus momentos, assim como Maignan e Pickford. Mas nenhum goleiro foi tão importante para a posição de chegada do seu time quanto o marroquino. Boa atuação contra a Holanda, grande primeiro tempo contra o Canadá e segurou a França durante muito tempo. Meu titular. Lateral Direito - Pedro Porro (Espanha): Numa copa sem grandes laterais direitos (Hakimi jogou como o melhor do mundo durante bom tempo, mas foi muito mal contra a França), a regularidade do Espanhol joga a favor, inclusive pelos dois gols marcados, sendo um deles na semifinal. Zagueiro - Pau Cubarsí (Espanha): Garoto de 19 anos que joga como um veterano. Tem tudo para se transformar em um monstro da posição. Não foi bem no único gol sofrido pelos espanhóis no torneio, é verdade, mas no geral foi firme e participou da ...

Memórias afetivas da Copa

Em 1994 eu era um garoto prestes a completar sete anos descobrindo o que era uma Copa do Mundo. Chegando da escola e vendo uma reportagem com o show da abertura (aquele que a Diana Ross errou o chute). Com meu primeiro álbum, conhecendo os países e as mitologias. Impressionado com a Bulgária eliminando a Alemanha. Encantando com Hagi e Dumitrescu brilhando com seus uniformes quase dourados sob o sol da Califórnia. Na Copa da França eu iria fazer 11 anos e a esse altura nada era mais importante na minha vida do que o futebol. Podia ver todos os nomes que lia na revista Placar e conferir que Raul e Beckham não eram nada demais. Assisti todos os jogos e sofri como nunca na derrota contra a França. Em 2002 eu estava para fazer 15 anos e o futebol ainda era, talvez, a coisa mais importante da minha vida. Mas os jogos de madrugada eram um tormento para um estudante do primeiro ano do Ensino Médio. Lembro que os jogos eram às 2h30, 5h e 7h30. Praticamente nunca conseguia ver o da madrugada. S...

Dez anos de piauí

Lembro-me bem do dia em que eu conheci a revista piauí: 29 de novembro de 2006. Era aniversário de um tio e em sua sala estavam dispostas as duas primeiras edições daquela revista grande, com capas curiosas que eu já havia visto no programa Pontapé Inicial, da ESPN Brasil. Entre uma folheada e outra, me peguei hipnotizado na matéria de Antônio Prata, How do you do, Dutra? Também não consegui me desvencilhar de uma matéria da Vanessa Bárbara sobre os palíndromos. Devo ter sido bem antissocial naquela noite, mas só sei que no mês seguinte eu estava na banca de jornal comprando aquela revista grande e assim o fiz desde então (exceção feita a um breve período em que fui assinante). Dez anos já passaram e nesse tempo piauí me apresentou alguns dos meus autores favoritos (David Foster Wallace, Daniel Galera), me fez comprar livros, me mostrou que um olhar aprofundado pode mostrar que nem tudo é como parece ser, me fez entender as causas dos acidentes aéreos nacionais, conhecer os vultos da...