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Para a eternidade

O futebol realmente é capaz de produzir momentos para a eternidade, lances que jamais serão esquecidos por quem viu e mesmo por quem apenas ficou sabendo. Momentos que, quando olhados em retrospectiva, já pareciam predestinados ao infinito temporal, mais do que isso, que de alguma forma já pareciam escritos em livros de história mesmo antes de acontecerem. O gol de Aguero que deu o título ao Manchester City. A cabeçada de Van Persie contra a Espanha. O gol do Van Basten contra a União Soviética. A cabeçada do Sergio Ramos na final da Champions League. O gol do Messi contra o Athletic Bilbao (de alguma forma, existiu uma estranha sensação coletiva de que alguma coisa iria acontecer quando Messi pegou a bola despretensiosamente próxima a linha do meio de campo. Enquanto ele avançava parecia ser uma questão de tempo para que o presente encontrasse o futuro que já estava determinado muito antes da existência de qualquer um e coube a todos nós o papel de assistir essa epifania com a respira...

Superliga Europeia

Não tem jeito: apenas os torcedores de balancetes podem apoiar a aberração que é a SuperLiga Europeia, nova criação de 12 clubes que se denominaram grandes demais para dividir a atenção com os outros. (aliás, é engraçado que eles ainda esperem o surgimento de outros três times nesta mesma posição para fechar um clubinho de 15). A ganância é a óbvia explicação para este movimento, mas eu vejo particularidades em cada caso. Vale lembrar que 10 dos 12 clubes beligerantes tem donos. O Liverpool, Arsenal e Manchester United pertencem a norte-americanos, o Tottenham está na mão de investidores ingleses, o Manchester City tem seus negócios dirigidos nos Emirados Árabes, enquanto o Chelsea é acariciado por dinheiro russo. O Milan também é um negócio de norte-americanos, enquanto a Internazionale é de Chineses e a Juventus pertence à famiglia Agnelli. Há por último o Atlético de Madrid, controlado por investidores espanhóis. Real Madrid e Barcelona são os únicos dois clubes em um modelo mais as...

Duas latas de leite

Ele parecia ser muito mais velho do que eu e tinha nascido no Haiti. Disse que não queria dinheiro, queria apenas comprar duas latas de leite para sua filha de um ano e nove meses e que havia nascido no Brasil. Era praticamente a idade do meu filho, também nascido no Brasil. Falou algumas coisas e tossiu, o que me assustou. Os leites eram Ninho, 1 a 3 anos. Falei que compraria. Cada lata custa vinte e oito reais e alguns centavos. Paguei cinquenta e seis reais e alguns centavos no caixa e entreguei as duas latas de leite para sua filha de um ano e nove meses. Cinquenta e seis reais e alguns centavos não chegam a ser nada, mas eram muito para ele. Enquanto saia do estacionamento o observei atravessando a avenida movimentada carregando as duas latas de leite. Torci para que fosse na paz e pensei por um segundo que ele talvez não fosse muito mais velho do que eu.

As Mangueiras que não existem mais

Todas as ruas do meu bairro tinham nome de plantas, exceto uma. Coqueiros, Seringueiras, Araucárias, Buritis e Pau Brasil dividiam sua existência com uma melancólica Rua Projetada. Talvez pelo costume, em um bairro que reservava travessas para os Biribás, Figueiras e Sebiperunas, a rua sem nome era conhecida como Mangueiral. O nome era auto-explicativo para quem passasse pelo local. Meia dúzia de mangueiras adornavam a esquina da rua não pavimentada, uma linha reta de 350 metros ligando Jardim das Palmeiras e Chácara dos Pinheiros. Durante cinco ou seis anos da minha vida passei por ali todos os dias, retornando do meu colégio para casa. O caminho era um pouco mais longo, coisa de 200 metros a mais do que o outro que passava por dentro do bairro, mas os relatos sobre bicicletas e relógios roubados dentro do bairro me faziam preferir passar por aquela rua erma, cercada de terrenos baldios e cuja única construção era uma fábrica de orelhões de fibra de vidro. Não demorava mais do que qua...

Sonhando com a Guerra Civil

Vez por outra, surge por aí um vídeo em que um cidadão aparentemente demente é entrevistado em um programa de TV. Entre as diversas alucinações proferidas pelo indivíduo, está a afirmação de que o Brasil, infelizmente, só vai mudar quando partir para uma guerra civil, fazendo o trabalho que a ditadura militar não fez, de matar pelo menos 30 mil pessoas, começando com o presidente da República. A entrevista é de meados dos anos 90 e o cidadão problemático era o até então desconhecido deputado federal Jair Bolsonaro. Infelizmente, o processo de amadurecimento da nossa democracia levou ao seu consequentemente apodrecimento e hoje esse homem é o presidente da República – o primeiro nome na lista de baixas de sua sonhada guerra civil. Bolsonaro adora repetir o poder que sua caneta BIC tem, mas não tem nenhuma capacidade de tomar qualquer decisão útil para o país. Na falta de coisa melhor para fazer, o presidente vive alimentando o seu desejo recluso de provocar uma guerra civil brasileira. ...

A solidão do Seu Raimundo

Raimundo, Cabeleireiro Unissex. A fachada já desbotada não chama muito a atenção em meio ao comércio movimentado da Avenida das Palmeiras. O nome Raimundo em letras vermelhas as outras informações contrastadas em preto e branco, a foto de um rosto feminino e um masculino com cabelos curtos, ela com uma discreta franja, ele com um vistoso topete. Paredes azuis com rodapé preto e um cartaz anunciando a contratação de profissionais. Imagens de priscas eras do Google Maps, no entanto, mostram que o salão do seu Raimundo é um dos mais tradicionais estabelecimentos da região. O primeiro registro da Avenida, datado de 2011 mostra o local com paredes verdes descascadas anunciando escovas progressiva, marroquina, definitiva e mexas. Cortes Masculino e Feminino. Relaxamento, chapinha, reflexo, hidratação e pintura. O prédio é cercado por casas residenciais, o asfalto da rua está em péssimas condições e o comércio ainda é rarefeito. Mesmo alguns dos locais mais bem estabelecidos não existiam. Hav...

Cheio de orgulho

 A vida não tem sido fácil para os são-paulinos nesta década. O último título brasileiro foi conquistado em 2008 e depois disso veio apenas uma conquista de Copa Sul-Americana em uma conturbada final contra o Tigres, na qual o segundo tempo nem foi jogado. Poucos foram os momentos de felicidade para um torcedor do São Paulo nestes anos. Houve uma empolgação com o surgimento de jovens talentos, como Lucas Moura, David Neres, Luiz Araújo e Antony, mas, tão logo eles vieram foram embora. Houve alguns momentos de empolgação passageira, como o segundo semestre de 2012 - ah, aquela vitória contra a Universidad do Chile, ou aquela vitória contra o Cruzeiro em 2014, um breve júbilo com Osório e Rogério Ceni, algumas vitórias sofridas com Bauza e Aguirre, a ilusão de 2018, mas tudo isso foi tão rápido e logo foi brecado por alguma humilhação acintosa. Goleadas contra Palmeiras e Corinthians, eliminação pro Bragantino, Penapolense e Mirassol, eliminação em todo e qualquer mata-mata disputado...

Lembranças da vida sem luz

Primeiro vem a oscilação, depois a luz se apaga completamente. Se passam cinco minutos, tempo que serve para confirmar que a luz acabou mesmo, não é só um problema passageiro. Ligamos a lanterna do celular e passamos a procurar pelas velas da casa. Elas estão em um vaso de flor no armário da lavanderia. São três no total, já entrando na metade de suas vidas, fruto da utilização em outros apagões registrados nos cinco anos em que moramos nessa casa. O fósforo está perto da churrasqueira. Uma vela é colocada sobre o balcão da cozinha. Outra iria para cima da mesa, mas penso um pouco e pego uma tampa de um tupperware, para que a cera da vela não derreta sobre a mesa e provoque qualquer estrago. A terceira vela é colocada em uma tampa de garrafa de suco de laranja recém finalizada e o seu lugar naturalmente seria sobre o armário da sala, proporcionando plena iluminação nos dois cantos do cômodo. Mas, logo percebo que o lugar é facilmente alcançável pelo meu filho. Há uma grande probabilida...

Fumaça

 Alguns dias são ruins, os outros são horríveis. Vou com meu filho até a calçada, no nosso processo diário para dormir. A fumaça arde os olhos. Um vento fresco sopra e o que podia ser um alívio para o calor só piora as coisas. Os jornais anunciaram a previsão da chegada de um novo ciclone bomba, que iria derrubar a temperatura no sul e no sudeste. Para Mato Grosso a queda seria de meros 2 graus, mas o vento vindo da região sul seria suficiente para empurrar ainda mais a fumaça do Pantanal em chamas.  O dia seguinte amanhece e mal dá para ver o fim da rua. Estamos todos envoltos nessa fumaça da morte, na fumaça resultante da queima de animais e floresta. Uma necrofumaça. Todo ano é bem ruim, mas esse é horrível. Difícil dizer que não é o pior de todos os tempos. As redes sociais compartilham fotos de onças acuadas, com olhares tristes e perdidos, cansadas, sem entender o que está acontecendo, fugindo da morte inevitável e invisível. Onças são animais majestosos e imponentes, es...

Desgosto gratuito

É provável que se demore um tempo para começar a gostar de alguém. Você pode até simpatizar pela pessoa, ter uma boa impressão de uma primeira conversa, admirar alguns aspectos de sua personalidade, mas gostar, gostar mesmo é outra história. Vão se alguns meses, talvez anos, uma vida inteira para se estabelecer uma relação que permita dizer que você gosta de uma pessoa. (E aqui não falo de gostar no sentido de querer se casar ou ter relações sexuais com outro indivíduo). O ódio, por outro lado, é gratuito e instantâneo. Você pode simplesmente bater o olho em uma pessoa e não ir com a cara dela, ser místico e dizer que a energia não bateu, ou que o anjo não bateu, ou que alguma coisa abstrata não bateu. Geralmente o desgosto é recíproco e, se parar para pensar, poucas coisas podem ser mais bonitas do que isso: duas pessoas que se odeiam sem nenhum motivo claro e aparente, sem levar nenhum dinheiro por isso, sem nenhuma razão e tampouco alguma consequência. Ninguém vai se matar, brigar n...

O quão triste estaremos quando tudo isso terminar

O ser humano é um otimista nato. Mesmo quem acha que tudo vai dar errado, no fundo, vê isso como uma estratégia para tudo dar certo. Quando a pandemia de coronavírus se fixou no território nacional e todos estávamos impactados com as imagens italianas de hospitais lotados e caminhões carregando corpos, fizemos conjecturas sobre como seria o mundo quando tudo isso acabasse. Estávamos também impressionados com as cenas de solidariedade, com as músicas nas janelas, e, tomados pela humanidade que ainda habita em nós, fantasiamos um novo mundo mais coletivo, onde cada momento fosse mais aproveitado e cada ser vivo fosse mais respeitado. Esse pensamento positivo já é passado. A cada dia fica mais claro que a situação não vai melhorar. A pandemia foi tomada pelo debate político e, como qualquer drama da nossa sociedade, foi possuída pela banalidade. As mortes não impactam mais e viraram uma fria estatística cotidiana. Especialistas tentam explicar com novos termos como estamos perdidos, mas p...

Hanta

Sempre que Luiz Eloy Pereira vinha para Cuiabá, trazia consigo uma frente fria. No começo parecia apenas uma coincidência, mas, após uma série de visitas todo mundo chegou a conclusão que sua presença sempre agradável ajudava a amenizar o calor da cidade. Essa é provavelmente a primeira lembrança que eu tenho dele. Devia ter uns 8 anos de idade quando ele aparecia aqui para fazer cursos sobre algum vírus novo. Logo, já estávamos passando férias na casa que ele tinha em Iguape. Era fim de tarde, quando ele voltou de algum lugar com a informação de que naquele dia a maré estava baixa, portanto dava para fazer uma parte do trajeto de volta pela beira da praia. E lá fomos nós, três carros andando na areia dura que até pouco tempo estava embaixo d'água. Que praia era essa deserta na qual se podia andar tanto tempo na praia. Iguape, Ilha Comprida, Cananeia. Era janeiro de 1996. O dia terminava sempre em algum restaurante desses de cidade de praia, comendo manjubas fritas e com ele contan...

Sugestão de jogos

Pensei em uma lista de jogos de Copa do Mundo que o SporTV poderia reprisar por esses dias e cheguei a 30. Dá um mês de preenchimento da grade do canal. Só jogos de 1970 pra cá, quando há imagens disponíveis. Alemanha 3x2 Inglaterra 1970 Revanche da final de 1966, foi uma espécie de aquecimento para o jogo do século. Os ingleses abriram 2x0, mas os alemães reagiram nos 25 minutos finais em grande atuação de Beckenbauer e Overath. O gol da vitória só veio na prorrogação e rendeu críticas ao goleiro Bonetti, que substituiu o mito Gordon Banks, fora do jogo por comer pimenta mexicana demais. Alemanha 3x4 Itália 1970 Há uma placa no estádio Azteca informando que este foi o maior jogo do século XX. Bem, a verdade é que boa parte do jogo foi disputada entre momentos de chateação e por pouco, bem pouco, o que não ficou para a história foi uma vitória italiana por 1x0, gol marcado logo no início por Boninsegna. Mas, o gol de empate de Schnellinger aos 47 do segundo tempo abriu as portas da emo...

Sugestões de reprises de corridas para o SporTV

O SporTV precisa deixar qualquer cerimônia de lado e passar a resgatar corridas do passado sem nenhuma necessidade de introdução ou encaixe no formato do programa Túnel do Tempo. O Esporte não vai voltar massivamente tão cedo e ninguém aguenta mais as reprises preparadas para temporadas anteriores do programa, exibidas originalmente durante o fim de ano. Pensei em algumas corridas que poderiam ser retransmitidas pelo canal. Grande Prêmio da Alemanha de 1986 Dobradinha brasileira com vitória de Piquet e Senna na segunda colocação. As grande retas cortadas por chicanes de baixas velocidade consumiram o combustível dos líderes. A McLaren partia para uma dobradinha com Keke Rosberg e Alain Prost, mas primeiro o francês e depois o finlandês precisaram economizar combustível e tiraram o pé. Não adiantou, eles não completaram a prova. Piquet assumiu a liderança faltando seis voltas e Senna, que a duas do fim estava em quarto, cruzou em segundo balançando o carro para encontrar combustív...