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A solidão do Seu Raimundo

Raimundo, Cabeleireiro Unissex. A fachada já desbotada não chama muito a atenção em meio ao comércio movimentado da Avenida das Palmeiras. O nome Raimundo em letras vermelhas as outras informações contrastadas em preto e branco, a foto de um rosto feminino e um masculino com cabelos curtos, ela com uma discreta franja, ele com um vistoso topete. Paredes azuis com rodapé preto e um cartaz anunciando a contratação de profissionais.

Imagens de priscas eras do Google Maps, no entanto, mostram que o salão do seu Raimundo é um dos mais tradicionais estabelecimentos da região. O primeiro registro da Avenida, datado de 2011 mostra o local com paredes verdes descascadas anunciando escovas progressiva, marroquina, definitiva e mexas. Cortes Masculino e Feminino. Relaxamento, chapinha, reflexo, hidratação e pintura. O prédio é cercado por casas residenciais, o asfalto da rua está em péssimas condições e o comércio ainda é rarefeito. Mesmo alguns dos locais mais bem estabelecidos não existiam. Havia uma Lan House chamada Tribal, onde hoje há uma loja de roupas. Um espaço de festas infantis com pintura lisérgica onde hoje há uma distribuidora e mesmo a Drogavida de então apresentava um visual poluído, com direito a boneco inflável na porta. Nem parecia haver espaço para a construção do Subway que hoje é seu vizinho.

Digo isso porque quando me mudei há cinco anos para o Jardim Imperial, seu Raimundo era um dos únicos três salões Unissex do bairro. Havia o Gilson (minha escolha inicial), havia ele e um outro, que parecia estar sempre fechado. Os outros seis ou sete eram dedicados ao público feminino. O cenário mudou completamente nesses tempos. Acho que não existem mais tantos salões femininos, mas, por outro lado, surgiram pelo menos seis novos estabelecimentos dedicados ao público masculino, fora aqueles que já fecharam.

São as famosas barbearias retrôs. Ambientes modernos que remetem ao passado, com seus chãos quadriculados, postes coloridos giratórios, decoração milimetricamente rústica e forte apelo à masculinidade esquecida. Fotos de homens com barba estilo lenhador, vistosos topetes aparados a ferro e fogo, mesas de sinuca, venda de cervejas artesanais, papo de homem, coisa de homem. Estabelecimentos desse tipo se multiplicam em nossa cidade, só sendo superados em números pelas Drogasil.

O ambiente é claramente uma representação imagética de um passado idealizado não vivenciado por nenhum de nós. O público-alvo desse comércio jamais cortou o cabelo em lugares de chão quadriculado, tomando cerveja ou etc. O salão da minha infância era um lugar com duas ou três cadeiras. Barbeiro sempre ocupado. Pais esperando a vez para cortar o cabelo ao lado dos seus filhos. TV ligada na Globo ou radinho transmitindo os resultados do jogo do bicho (vez por outra o próprio anotador de apostas entrava no estabelecimento para captar a fézinha do barbeiro) e uma pilha de revistas playboy.

Pois bem. No ano passado o Gilson se mudou e fiquei órfão de cabeleireiro. Testei duas barbershops da vida, mas os profissionais de lá insistem em fazer topetes nos clientes e o ambiente full testosterona é um pouco opressivo (Em um deles quase levantei e fui embora quando o cara enfiou uma toalha no microondas para fazer a barba de outro cliente. Fiquei e ganhei um topete. Deveria ter seguido meus instintos).

Veio a pandemia, o fique em casa e eu fiquei um ano sem cortar o cabelo, até que a situação começou a ficar insustentável. No último sábado acabei indo até o estabelecimento do Seu Raimundo, ainda mais acanhado desde que um desses modernos e gigantes salões masculinos foi inaugurado, diria que de maneira até ofensiva, justamente ao lado do Raimundo. Estava vazio, como geralmente costumo a observar, mas o que me deu certa segurança sanitária nos tempos atuais.

Seu Raimundo consertava uma máquina de cortar travada e pareceu até surpreso com a aparição de um cliente. Falou sem parar durante a metade inicial dos trabalhos, reclamando que não consegue arrumar ninguém para trabalhar, que todo mundo quer montar salão, que os salões modernos como o inaugurado ao seu lado eram cheio de pessoas que não sabem cortar o cabelo ("apenas raspam a lateral e deixam um topete gigante e acham que isso é cortar cabelo"). Falou que investiu em toalhas e outros equipamentos, mas as pessoas ligam para cadeiras grandes e inúteis. Que sabe que todos os possíveis clientes na verdade estão indo no gigante empreendimento vizinho.

Ele corta cabelo há 67 anos e isso deve dar alguma pista sobre sua idade. Mal fui embora e ele fechou o salão. Devo ter sido seu último cliente da manhã, talvez o único. Em sua solidão, Raimundo tem todos os motivos para lamentar a modernidade. Seu salão é o verdadeiro salão retrô da região, uma antiguidade legítima, mas que por não ser friamente planejada, é vista apenas como ultrapassada.


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