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BRMC e Expectativas

No mundo atual existem apenas duas bandas que me criam expectativa quando estão prestes a lançar um disco. Black Rebel Motorcycle Club e Wilco. Todas as outras minhas bandas favoritas já acabaram e o Radiohead, bem, é melhor não criar expectativas sobre o que o Radiohead irá fazer. Lançado há dez dias e na rede há um mês, a vez é do BRMC. E tenho que dizer que o dia em que um disco do BRMC saí na internet é um dia especial. Não vejo a hora de sair do trabalho para fazer o download. Se ainda existissem lojas de discos, eu não veria a hora de sair do trabalho para passar na loja e comprar o CD. Mas, infelizmente, não existem mais lojas de CD em Cuiabá e, infelizmente também, CDs do BRMC não são lançados no Brasil. Só nos resta o download ilegal. Veja, o trio de São Francisco tem um carreira praticamente impecável. Dois discos são geniais (BRMC e Howl), dois discos são muito bons (Devil's Tattoo e Baby 81) e o outro é apenas bom. Infelizmente, esse histórico gera expectativas e...

Uma vitória e as memórias de infância

No dia 28 de março de 1993, Ayrton Senna ganhou o Grande Prêmio do Brasil pela segunda e última vez em sua carreira. Para mim, a imagem inesquecível deste GP está registrada aos 5:45 deste vídeo. Ayrton Senna ganha a corrida e é obrigado a parar na reta dos boxes, impedido de passar por uma multidão que invadiu a pista. Após algum tempo lá dentro, Senna saí do carro, sobe sobre ele e ergue os braços comemorando em meio a multidão em êxtase. Imagem digna de pôsteres. Naquela época, o Grande Prêmio do Brasil era um evento. A Fórmula 1 estava no seu auge e o GP brasileiro acontece na hora do almoço. Era a oportunidade de juntar a família toda em volta da televisão para torcer pelo Senna. Para mim, a vitória de 1993 foi muito mais emblemática do que a de 1991, heroica, com seu carro quase quebrando. Em 1993, Senna tinha um conjunto bem inferior a Williams de Alain Prost e esteve claro desde sempre que Prost conquistaria o tetracampeonato. As vitórias de Senna neste ano foram todas ...

O Poderoso Chefão, ritos e fitas duplas

Neste dia 24 de março de 2013 eu assisti O Poderoso Chefão pela primeira vez. E é bom que se frise que esta foi a minha primeira vez, agora, quando já tenho quase 26 anos. Desde seu lançamento em 1971, O Poderoso Chefão ganhou ares místicos. Para muitos, é considerado o maior filme da história, sucesso de público e crítica, multipremiado com roteiro brilhante e atuações históricas. Mas eu não pretendo falar sobre o filme, não sou bom para falar de filmes. Prefiro falar da primeira vez. Com o tempo, passou a ser difícil assumir que eu jamais havia assistido O Poderoso Chefão. Em todos os lugares em que eu ia, estava rodeado por pessoas que já haviam assistido o filme inúmeras vezes. Outros já haviam lido o livro original de Mario Puzo. E eu não. Era o único ser humano que jamais havia assistido O Poderoso Chefão, um motivo de vergonha. Me perguntava em que aula do colégio eu faltei, a aula em que o filme foi exibido. Se questionado, desconversava com discursos evasivos sobre a cen...

Jogo Claustrofóbico

Claustrofobia: Substantivo, feminino singular. Significa o medo mórbido de da clausura ou dos pequenos espaços. Claustrofóbico. Para mim, essa é a principal definição para o futebol praticado pelo Barcelona desde que Pepe Guardiola assumiu o comando da equipe catalã em 2008. Jogo que andou meio esquecido no último ano, principalmente desde a saída de Guardiola e a entrada de Tito Vilanova. Mas jogo que voltou a ser apresentado ontem contra o Milan pelas oitavas de final da Champions League. Não, o Barcelona não tem medo dos pequenos espaços. Ele faz com que o jogo ocorra em pequenos espaços. Troca passes curtos e rápidos eternamente, criando os espaços na defesa do time adversário. A claustrofobia é provocada em seus adversários. Imagino que jogar contra o Barcelona é como ficar preso em um elevador, espremido em um vagão de trem. Você procura uma maneira de sair, mas não encontra. Não consegue sequer respirar, não tem para onde fugir. Em alguns casos, você até consegue sobrevive...

Muricy Ramalho Antes e Depois de Yokohama

A carreira do treinador Muricy Ramalho pode ser dividida em antes e depois da humilhante derrota que o seu Santos sofreu para o Barcelona, em Yokohama, pela final do Mundial de Clubes em 2011. Aquele fracasso ficou impregnado em sua face. Olhando em retrospectiva, a vitória do Barcelona parecia óbvia e de fato era. O Barcelona estava no auge do seu belo futebol, tinha Messi encantado, Xavi e Iniesta incapazes de errar um passe, Daniel Alves voando pela lateral direita, a zaga não corria maiores riscos e Fàbregas estava em um começo promissor no seu novo velho clube. A vitória do Barcelona era natural e era preciso fazer alguma coisa para que ela não se consumasse. Mesmo tão óbvia, boa parte das pessoas não tinha essa percepção. O setor nacionalista da imprensa e da torcida brasileira foi tomada por aquele sentimento de "Vamos ver se o Barcelona é assim tão bom". Se eles tem Messi? Nós temos Neymar e eu sou muito mais o Neymar do que esse argentino enganador. Eles tem Xa...

Andei Escutando (43)

Nick Lowe - The Impossible Bird (1994) Bob Dylan tinha 56 anos quando lançou Time Out of Mind em 1997. Paul McCartney tinha 55, neste mesmo ano quando lançou Flaming Pie. Neil Young tinha 44 quando lançou Freedom em 1989. Johnny Cash já passava dos 60 quando sua série American Records o resgatou do esquecimento. Da mesma forma, Nick Lowe já tinha 45 anos quando lançou seu pássaro impossível. O que esses discos tem em comum? A volta do reconhecimento para artistas que há muito tempo estavam esquecidos, que obtiveram algum sucesso de crítica e público, mas que depois se perderam, alguns foram esquecidos, satirizados. Pararam no tempo, ou pior, tentaram se adequar as tendências da época e nesse sentido nada foi pior do que os anos 80 para aqueles que começaram nos anos 60. Impossible Bird, tal qual os outros discos citados marca um momento em que as coisas voltam a dar certo. O artista parece, entre outras coisas, reconhecer a sua idade. Deixa de soar como um cover de si mesmo ou ...

O Papa e Eu

Em 1991 o Papa João Paulo II veio até o Brasil e surpreendentemente esteve presente em Cuiabá. A visita do Sumo Pontífice por estas terras talvez tenha sido o maior evento da história da capital mato-grossense. Lembro-me bem das pessoas amontoadas nas calçadas numa espécie de caça ao Papa. Todos querendo saber onde ele estava por onde havia passado, por onde passaria. A vida era mais dura na era pré-celular. Eu tinha quatro anos na época e fui levado por minha mãe e minha avó até um lugar em que o papa poderia passar. Lembro-me apenas da subida da Morada do Ouro abarrotada e que ficamos em algum ponto por ali. Até que o papa passou. Lembro vagamento de aquele carro com uma gaiola de vidro passando, algo bem rápido, algo que para uma criança de quatro anos não fez muito sentido. "Todo mundo se juntou aqui apenas para ver isso?". Contam que o papa se virou para o lado em que nós estávamos, exatamente enquanto passava por nós. Minha vó desandou a chorar, contam. Mas não me...

Centro Invisível

Artigo para o site do Centro Burnier Esses dias eu estava passando pelo Centro de Cuiabá quando percebi a existência de uma escadaria na Rua Pedro Celestino, perto da Praça da Mandioca. Percebi que nos 25 anos em que eu moro em Cuiabá, nunca havia prestado atenção na existência daquela escadaria que dava acesso a Ricardo Franco. Descobri, conversando com outras pessoas, que eu não era o único. A escadaria da Pedro Celestino permanece invisível aos olhos das pessoas, assim como tantos outros casarões centenários, bicentenários, que sobrevivem no centro de Cuiabá. Alguns desfigurados, outros abandonados, esperando apenas o dia em que irão desabar. Nós que vivemos em Cuiabá, muitas vezes nos esquecemos que vivemos em uma cidade com quase 294 anos de existência. Cuiabá cresceu espontaneamente ao longo de quase três séculos. O que pode parecer um desastre do ponto de vista do urbanismo, mas que é um prato cheio para a história. Quantos casarões históricos e invisíveis nós não temos nu...

Filmes Recentes

As Vantagens de Ser Invisível As vantagens de ser invisível é um filme que te faz sair do cinema se sentindo infinito, como bem diz o personagem principal. O filme trata de um sentimento comum a todos, àquela sensação de pela primeira vez se sentir parte de alguma coisa, os primeiros amigos de verdade, primeiras experiências. No plano de fundo ainda são colocados temas relativos ao Bullying, drogas, pedofilia, homossexualidade, enfim, os muitos conflitos da adolescência. Essa época da vida que é uma merda, mas que é tão boa e nostálgica. Django Livre A vingança, a justiça com as próprias mãos, o sangue na boca, o êxtase em ver a fazenda escravista sendo exterminada para todo o sempre. Christoph Waltz está ótimo, Samuel L. Jackson impagável, a cena da Ku Klux Klan é hilária. Mas, que filme longo. Todos fazem uma longa caminhada da feira de escravos até a fazenda e o único objetivo dessa cena que tem uns 40 minutos é mostrar um escravo sendo devorados por cães. Mas, eu sei. Tarantino...

A Cuiabá dos Outros

Diriam os psicólogos que existem quatro eus. Com uma cidade não é diferente. Existe a cidade que nós conhecemos e vivemos e existe a cidade que os outros enxergam. A partir do momento em que a Mangueira desfilou na Sapucaí, Cuiabá passou a ser a Cuiabá deles, a Cuiabá que a Mangueira enxerga. Uma Cuiabá de jacarés, florestas, eldorados e cajus. Uma Cuiabá que há 150 anos espera a chegada de um trem. Que trem é esse? Seria o VLT? Não sei. Para quem mora aqui não faz sentido, mas para os outros não há problema. Eles podem imaginar Cuiabá como uma cidade em que o povo olhar perdidamente para o horizonte esperando um trem que jamais irá chegar. Não há problema em mostrar alas com vitórias régias ou noivas cadáveres. Pouco importa se quem mora em Cuiabá não entendeu nada daquilo. Os outros provavelmente não se importam. Pouco importa o que é verdade, o que é exagero, o que é parece invenção. Importante é a imagem. E a imagem de Cuiabá é de um destino insólito, excêntrico apenas isso. As...

O Enigma de Ganso

Ontem, Paulo Henrique Ganso teve um dia chave na sua breve carreira futebolística. Enfrentaria o Santos na Vila Belmiro. O ex-craque enfrentaria o seu ex-time, do qual saiu brigado, xingado, desqualificado, desacreditado. Seria a chance de, motivado, destruir com a partida, mostrar para seu ex-time que merecia ser mais valorizado, mostrar para a crítica que ainda é um craque, que pode definir jogos. Poderia ser o jogo da redenção. Por outro lado, poderia ser o jogo do fracasso. Ganso poderia sair apagado do jogo, sem pegar na bola, humilhado pelo adversário, vaiado pela torcida. Desceria para o vestiário, tiraria as chuteiras e nunca mais pegaria numa bola ou na outra. Ganso podia decidir seu futuro, dependia apenas dele. Terminando o jogo, é óbvio que Ganso não foi bem. Em compensação, acho que não foi tão mal, já vi jogos piores. Ganso foi apagado, pouco notado. O patético de Ganso é que ele atualmente ele não consegue nem ser capaz de viver marcos históricos.

Andei Escutando (42)

The Zombies - New World Discos ruins são normais. Imagino que a imensa maioria dos discos lançados em um ano são ruins, descartáveis. O que pega é quando uma banda minimamente boa lança um disco ruim. É aquele sentimento de raiva, decepção, incompreensão. O que eles queriam fazer com isso? Raramente um disco ruim lança um sentimento de pena, quase uma solidariedade. Pois foi isso o que eu senti ao escutar o inominável e abominável terceiro discos dos Zombies, New World , lançado em 1990. Contextualizemos. Os Zombies foram uma destas tantas bandas de rock surgidas na década de 60 e que alcançaram algum sucesso, mesmo que esporádico, em algum momento. "Guiados pelo piano rápido de Rod Argent e a voz melódica de Colin Blunstone" eles alcançaram seu maior sucesso em 1968, com o single Time Of the Season , que por aqui no Brasil, chegou a fazer parte da trilha sonora do filme sobre a Bruna Surfistinha.  Ai começa a triste ironia da história. Quando Time of the Season ...

O vai e vem da reputação (com Jack White)

Blunderbuss, a estreia solo de Jack White, é um bom disco, não tenho dúvidas. Escutei ele sem me prender em nenhuma canção específica que fosse excepcional, mas todas as músicas eram boas, não havia nenhuma ruim. Mesmo assim, analisando friamente, Blunderbuss não é melhor do que mais da metade dos discos em que Jack White esteve presente ao longo de sua carreira. É melhor que os dois discos do Dead Weather. Não é melhor que os dois discos dos Raconteurs, talvez esteja no nível do primeiro, Broken Boy Soldiers. E em relação ao White Stripes, não é melhor que Elephant e White Blood Cells, briga ali com Icky Thump e De Stijl, e só é superior ao disco de estreia e ao Get Behind me Satan. Mesmo assim, Blunderbuss marca um fato novo na carreira de Jack White. É o seu primeiro trabalho que ocupa o topo de várias listas de melhores discos do ano. Ok, para não ser injusto, a estreia dos Raconteurs também brigou pelo topo em algumas listas e White Blood Cells esteve sempre bem posicionado, a...

Celular em Casa

Eu mal uso meu celular. Tenho o mesmo número há 9 anos e o mesmo modelo há incríveis dois anos, nesse mundo em que as pessoas trocam de celular mensalmente. Meu celular não tem acesso à internet e permite basicamente falar, ser acordado, utilizar um cronometro, uma outra nota. Se quero enviar uma mensagem utilizando a palavra "bacana" tenho que apertar o 2 inúmeras vezes com intermináveis intervalos de espera até que a letra se consolide. Passo dias, às vezes meses sem receber um telefonema. Minha namorada me liga, minha mãe me liga eventualmente, meu pai, de vez em quando algum parente, além dos telemarketings habituais e os enganos ocasionais. Não corro o risco de sofrer uma ligação importante, urgente. Em outras palavras, eu sobreviveria bem sem o meu celular. Mesmo assim, quando já estava na metade do caminho para o trabalho hoje, sinto meu bolso vazio e percebo que havia esquecido o celular em casa. Fui tomado por um pânico momentâneo. "E se me ligam? E se e...