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Azul profundo

Hoje a cidade acorda sob um céu azul, um azul profundo dos céus de outono. Um azul que se estende por todo horizonte, sem ser incomodado por nenhuma nuvem passageira. Olho pela janela e acho que é possível enxergar o mundo todo até a sua curva. Esse azul que surge após a chuva dos últimos dias. O azul desta sexta-feira indica que o verão enfim terminou, que chegamos ao outono, logo o inverno, que as chuvas foram embora. Esse céu amplo, dá a impressão de que o mundo é ainda maior. Logo a fumaça cobrirá este céu. As nuvens de frente fria esconderão seu azul, esconderão sua profundidade. O planeta parecerá achatado entre as nuvens. Mas nesta sexta-feira o céu se expande ao infinito.

O dia, aquele dia

Bruno bloqueia Rivaldo e o Minas vence o jogo, disputado jogo contra o Florianópolis. Os mineiros venceram os dois primeiros, tiveram a chance para ganhar terceiro, mas perderam. No quarto set equilibrado, os catarinenses empataram. Já no quinto set, a Cimed é que teve a chance de ganhar. Três vezes. Mas ai, apareceu o Bruno. Bruno empatou a partida na primeira, empatou a partida na segunda. Bloqueou Rivaldo uma vez e colocou o seu time na frente. Bloqueou a segunda vez e ganhou o jogo. Bruno ganhou o jogo. E quem é Bruno? Bruno não era ninguém, era um reserva. Nem sabia se ele entraria no jogo, mas ele entrou. Entrou e ganhou o jogo. Quantos jogos mais Bruno vai ganhar? Quem sabe se ele vai voltar a ter uma participação decisiva? Talvez nunca mais. Mas, hoje foi o seu dia. Uma das graças do esporte, é justamente o fato de que os atletas anônimos podem ter seus dias. Adriano Gabiru pode marcar o gol que derrotou o Barcelona, o reserva obscuro pode anotar cinquenta pontos. Ta...

O Vendedor de Gramofone

Foi em uma quinta-feira ensolarada que eu o vi pela primeira vez, em uma rotatória no bairro do Carumbé. Eu estava indo almoçar, quando vi aquela figura parada sob o sol escaldante. Uma figura igual a tantas outras que vemos pelas ruas, exceção feita a um detalhe: o cidadão segurava um gramofone. O gramofone é um objeto que já não faz mais parte da nossa sociedade e do nosso imaginário. Inventado no século retrasado, ele foi substituído por diversas tecnologias mais modernas. É possível que muitas pessoas tenham olhado o objeto segurado pelo cidadão e não soubessem o seu nome e não entendessem a sua função. E quem conhece um gramofone, espera encontrá-lo em um museu, um antiquário, no acervo pessoal de algum colecionador. Jamais nos braços de alguém em uma rotatória ensolarada do Carumbé. Passando pelo cidadão, reparei que na base do gramofone estava afixado um papel com a palavra “Vendo”. A situação me pareceu ainda mais estranha. Quem em tempos atuais teria um gramofone para ...

Impressões da primeira corrida do ano

Observações depois da abertura da temporada. * A McLaren realmente parece ter o carro mais rápido do ano. Button ganhou com sobras e mostrou que poderia ter andando ainda mais rápido se pudesse. Button é o favorito desse começo de ano, quando os carros ainda estão instáveis, sofrem mais com o desgaste. Ele sempre chega sobrando no final. * A Red Bull mostrou que o carro tem um bom ritmo de corrida, mas nem tanto nos treinos. Vettel deve brigar sempre, principalmente se Newey evoluir o projeto. * A Ferrari tem tudo para ser uma lástima. Alonso é um batalhador e vai vai tentar aproveitar as circunstâncias para brigar por um pódio. Sim, para Alonso não é uma corrida. É uma guerra contra o próprio carro em 50 voltas. * A apatia de Felipe Massa deve continuar. No ritmo que vai, qualquer ponto que ele conquistar será uma surpresa. Ano que vem, terá que procurar carro. É grande o risco de que ano que vem não tenhamos nenhum brasileiro na categoria. * A Mercedes continua sendo um mis...

Taste It, Forgotten Boys

O que faz um disco do Forgotten Boys ser bom, são as guitarras. Os riffs grudentos, os solos empolgados. Gustavo Riviera pode não cantar nada, Chuck Hipolitho pode fazer falta e a bateria também pode ser excelente. Mas os Forgotten Boys são sinônimos de guitarra. São os grandes riffs que fazem Gimme More and More (2003) e Stand by the D.A.N.C.E. (2005) serem dois grandes discos. As guitarras que salvam o mediano Louva-a-deus (2008). Para Taste It, a banda teve uma grande mudança na sua formação, agora é um quinteto. O som traz algumas influências do country rock (a faixa título é pantanosa, igual Lynyrd Skynyrd). O peso também traz lembranças de Queens of the Stone Age. Taste It não é um disco inesquecível. Não é uma pancada contínua, como nos melhores discos. Chuck Hipolitho realmente faz falta. Mas, Taste it ainda tem guitarras. E para os Forgotten Boys, isso ainda é o bastante.

Andei Escutando (31)

Bob Dylan – New Morning (1970): Li certa vez que nesse disco nós temos o Bob Dylan possível, depois de uma série de discos ruins. New Morning está longe de ser excepcional, mas é um disco agradável, puxado para o Blues e para o Gospel, com vocais fortes de Dylan. Melhores : Day of the Locusts e New Morning. Crosby, Stills & Nash – CSN (1977): Ainda existem as boas harmonias vocais, mas os tempos são outros. Em 1977 a época do trio parece ter passado e a produção dá um clima que lamentavelmente lembra... sei lá, Phil Collins. Melhores: See the Changes e Anything at all . Elvis Costello – Trust (1981): Um disco bem sem graça. Melhores: Fish ‘n’ Chip Papers e Clubland. Gene Clark – No Other (1974): D isco repleto de músicas épicas. Meio forçado às vezes, mas todas as músicas são boas. Melhores: Some Misunderstanding e No Other . Gram Parsons – GP (1973): É aquela história. O country puro, pode até ser respeitoso, mas é chato pra caramba. Os melhores momentos d...

Go Fly A Kite

Ben Kweller sempre pareceu incapaz de fazer uma música ruim. Seus três primeiros discos são excelentes, cada um à sua característica. Já o quarto, Changing Horses , era um disco inconstante, fruto provavelmente da mudança radical de estilo. Changing Horses deixava o rock alternativo, o folk rock para abraçar o country. Reflexo do momento de Kweller, que deixava Nova York, voltava para o interior e passava a utilizar um chapéu de vaqueiro. Mesmo assim, por mais que Fight fosse meio assustadora, Changing Horses não chegava a ter músicas ruins. Eram músicas de um estilo diferente, menos brilhantes, enfim. Completamente assustadora foi a primeira faixa divulgada de Go Fly a Kite , o novo disco de Kweller. Mean To Me lembrava bizarramente um powerpop decadente do final dos anos 70. Um refrão mecânico, uma guitarra clichê e até mesmo um sintetizador, para completar a cereja do bolo. O refrão de Mean to Me era a pior coisa que Kweller já havia feito em sua carreira  e derrubava ...

Eike Xiaoping daqui a 200 anos

Olho numa pilha aleatória de revistas, a capa da Revista Veja de um mês, talvez dois meses atrás. Aquela que trazia uma montagem de Eike Baptista em trajes chineses, com os dizeres “Enriquecer é glorioso”. Olho e vejo, como essa capa continua sendo ruim. Tudo é ruim. A começar pela figura de Eike Baptista, e essa tentativa de alçar o especulador ao posto de ídolo nacional. A arte da montagem é péssima. Tanto que várias outras montagens que surgiram de brincadeira depois, ficaram em um nível parecido. O gancho utilizado também é péssimo. Eu penso de onde é que os editores da revista foram buscar Xiaoping e sua frase dita a não sei quantos anos atrás. E como eles se convenceram que essa ideia era boa? Ainda mais com esse péssimo lema “Enriquecer é glorioso”. “Enriquecer é glorioso”, que frase ridícula. A explicação para a matéria é igualmente péssima. “Eike Baptista exemplifica a nova geração de milionários que não tem vergonha de enriquecer e trabalham duro”. Em outras palavras, ...

Os relógios

São 3h20. Será que o relógio já está ajustado ao horário de verão? Olho no outro relógio e também são 3h20. Este não se ajusta sozinho. Então, realmente são 3h20. Ou melhor, são 2h20, 3h20 no horário antigo. São 3h30. Então, logo são 4h30 no horário antigo? Será que o celular se atualizou sozinho. Olho no relógio. Não, o celular realmente não se atualizou. Logo, são 3h30. 4h30 no horário antigo. Não, 3h30 no horário antigo. Ainda são 2h30. Dia seguinte. 10h30. São 10h30 mesmo, então são 11h30 no horário antigo? Ou na verdade são 9h30 no horário atual. Eu atualizei o celular? Ele se atualizou sozinho? Olho no computador. O computador, acho, que se atualizou sozinho. Ou não? Será que já atualizaram os relógios da casa? Que horas são? E se eu ligar para o hora certa? Eles se atualizaram? Eu nunca vou saber. Nunca mais saberei que horas são.

Raios

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. O que é uma lenda urbana. Sim, raios não tem GPS, eles não podem ser tão precisos assim. Mas, raios são variáveis. Eles vão e voltam para determinados lugares, dependendo da época. Quando eu era pequeno, me lembro que muitos raios caiam próximos a minha casa. Cada vez que chovia, eles apareciam. Não existia uma chuva sem raios. E foi assim até eu ter uns 15 anos, creio. A chuva chegava e junto vinha aquele clarão no céu, seguido por aquela explosão que te assustava.  A sensação é de que o mundo iria acabar e todos os seus eletrodomésticos iriam pifar. Os cachorros se jogavam contra a porta. Era um apocalipse particular. Placas de rede, telefones, várias coisas foram embora com a eletricidade. Até que os raios desapareceram. Não sei como, mas desapareceram. Nossa casa ficou livre dos raios, como em um milagre. Foram seis, sete anos sem que raios existissem. Claro, caía um ou outro, mas distante, sem oferecer risco para ni...

Não, Suárez

Luiz Suárez é um dos bons jogadores de futebol da atualidade. Teve uma brilhante temporada pelo Ajax, fez uma boa Copa do Mundo, onde protagonizou uma das histórias mais sensacionais da história: sua defesa em cima da linha, no último minuto que rendeu um pênalti para Gana e sua expulsão. Seu caminhar desolado para o vestiário e a comemoração com o pênalti fatal chutado na trave, a consequente classificação para as semifinais. Joga bem pelo Liverpool, onde tem sido o principal jogador do time. Foi o melhor jogador da última Copa América, que terminou com o título uruguaio após 16 anos. Se envolveu na polêmica com Evra do Manchester United, acusado de racismo. Uma história complicada que teve um desfecho triste hoje. Ao recusar cumprimentar Evra no começo do jogo, Luiz Suárez marcou sua história negativamente para sempre. A cena de Suárez, puxando sua mão para não cumprimentar o lateral do United foi triste. Uma mancha para o futebol.

Andei Escutando (30)

Badfinger – Magic Christian Music (1970): A estreia do Badfinger enquanto Badfinger foi produzida por Paul McCartney tal qual um disco de Paul McCartney. Muitas baladinhas que soam como versões pioradas de Honey Pie. Os melhores momentos ocorrem quando eles ligam as guitarras mesmo. Melhores: Midnight Sun e Come and Get It . Beck – Mellow Gold (1994): A mistura de folk, blues e rap soa bem em alguns momentos. Mas, o disco é freak demais para meus ouvidos. Melhores: Loser e Pay No Mind . Black Sabbath (1970): A estreia do Black Sabbath é praticamente um disco de Blues acelerado ao extremo. Boa, Ozzy. Melhores: Evil Woman e The Wizard . Elvis Costello – Get Happy!! (1980): Olha, muito li sobre a mudança de estilo de Costello nesse disco. Mas, eu achei a mesma coisa que os outros, só que sem muito brilho. Melhores : Riot Act e High Fidelity . Eric Clapton – From the Cradle (1994): Eric Clapton faz um disco de blues, simplesmente blues. E talvez seja o melhor dis...

Tênis

Em qualquer esporte, a discussão entre passado e presente é constante. Sempre há um saudosista para negar o presente. O Barcelona de hoje é espetacular? Pois, nos anos 60 todos os times brasileiros jogavam assim. Incluindo o Bangu e a Ferroviária de Araraquara. Michael Jordan, Michael Schumacher, todos tiveram seus feitos rejeitados pelos mais diversos motivos: falta de adversários, falta de méritos próprios. Claro, que sempre existem aqueles que negam o passado. Que acham que tudo só ficou bom a partir do momento em que nasceu. Mas ai é só desconhecimento mesmo. No caso dos saudosistas parece uma guerra com o presente, uma cegueira que nega o reconhecimento da história sendo escrita diante dos próprios olhos. No entanto, é impossível não reconhecer o que está acontecendo atualmente no tênis. O momento histórico. O que Novak Djokovic e Rafael Nadal vem fazendo é impossível. Seus jogos parecem vindos de simulações de videogame. Eles jogam no limite da técnica, da força e da capacida...

Atropelamento

E a mulher passou com o carro sobre o cachorro. Devagar. O cachorro agonizava por baixo da roda. E então, passou com a roda de trás sobre o cachorro, que continuava se debatendo. E então, foi embora. Pegou a rotatória e seguiu. O cachorro continuou no meio-fio, urrando de dor. E eu não consegui mais sorrir neste dia.