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Andei Escutando (20)

Badfinger – Wish You Were Here (1974): A impressão é que o excepcional No Dice foi uma exceção na carreira do grupo de duração trágica. Mas, Wish You Were Here é um disco até agradável. O powerpop no estilo Beatles pré- Revolver é deixado de lado. O som parece ter mais influência do Rock Progressivo e da carreira solo de Paul McCartney. Pianos marcando o ritmo e refrões com vocais mais agudos. Melhores: Know One Knows e Dennis . Clube da Esquina (1972): Milton Nascimento, Lô Borges e amigos parecem ter se juntado para gravar duas dezenas de músicas que parecem ser de domínio público. Melodias tão familiares que a sensação é que elas sempre existiram. As letras também são muito boas, o melhor uso de figuras surreais na música brasileira que já ouvi. “Resistindo na boca da noite um gosto de sol”. Melhores: O trem azul e Paisagem da Janela . Creedence Clearwater Revival – Willy and The Poor Boys (1969): No geral o CCR faz discos bem parecidos, sem grandes variações de um para o ...

A chuva lá longe

Chove e chove. Chove como chove em Petrópolis. Nunca havia visto a chuva assim, por aqui. Pela janela do meu quarto eu observava aquela muralha de água nas mangueiras que fazem fronteira com o horizonte. Penso que a árvore cortada ali é que me impedia essa visão. Ou será que realmente nunca choveu assim, aqui? Estava lendo "Água Viva", Clarice Lispector. Travei com este livro uma verdadeira guerra civil. Lutei contra o fluxo interminável de pensamentos e o maldito "it" que volta a cada cinco páginas. Terminei o livro e me senti vitorioso. Três anos atrás, não aguentei ela dizendo que comia a própria placenta e que isto era it. Ou não, porque isto é outra coisa. O livro tem lá seu charme por ser um fragmento de um pensamento, algo que não teve começo, nem fim certo, é apenas um recorte. Mas cansa, e como cansa em alguns momentos. E essa chuva, não é chuva de verão. É chuva de inverno. Essa em que as gotas de água ficam balançando no ar.

Strokes. Eles ainda vão fazer alguma coisa?

Os Strokes não são mais uma banda de garotos. Seu disco de estréia, que os colocou como principal expoente da nova geração de bandas foi lançado 10 anos atrás. Um disco cru, responsável pelo rótulo de salvação do rock – porque era excepcional. Hoje, 10 anos depois, esse rótulo já caiu e a salvação não passava de ilusão. Dois anos depois da estréia os Strokes apareceram com Room On Fire , um disco obviamente decepcionante, mas que guardava um punhado de boas canções. Seria um disco melhor se não estivesse a sombra de Is This It? . Já First Impressions of the Earth começa de maneira espetacular e depois da faixa 5 é bem fraco. Mas, ainda existia a esperança de que, mesmo sem salvarem o rock, os Strokes poderiam ser uma banda de carreira sólida, com bons discos. O novo da banda, Angles , tira essa impressão por completo e dá a noção de que eles deviam pensar na aposentadoria para preservar o mito. O fato é: First Impressions já trazia algumas experimentações, mesmo que tímidas. Batidas ...

A chuva em mim

Resolvo ficar em casa e o sol aparece. Decido sair e escuto o trovão. Boto meus pés na rua e o vento aumenta. Chego à academia e o sol reaparece. Nos 40 minutos que fico lá dentro o clima parece desértico. Volto à rua e o sol se esconde. Logo começa a chover. A chuva esperava por mim. Começava a correr para escapar da chuva e ela para. Paro e caminho ofegante e a chuva volta. Aceito a condição e caminho para casa. E a chuva cai lentamente durante a minha volta. Boto meus pés em casa no instante em que ela para. Lamento e irracionalmente penso: hoje choveu para me molhar.

Hábito: resenha mental

Durante a faculdade, qualquer livro lido tinha um objetivo. Ele resultaria em uma resenha, em algum artigo científico, em algum trabalho. Pois, desde então, adquiri um péssimo hábito: faço resenhas mentais dos livros enquanto os leio. Começo a leitura me atendo a itens técnicos. No estilo, na história. Penso em uma abertura. Acho que não aproveito tão bem o livro. Uma pequena tortura. Logo então, comecei a fazer esse blog. E aqui resenho discos, livros, ainda que em textos curtos. Tentarei me livrar desse hábito, talvez me internando. E em breve, falo sobre os livros da faculdade.

Árvore

Nunca subi em árvores. Seria uma prova de que eu não tive infância, junto com o fato de que eu jamais soltei pipas. Mas, minto um pouco quando digo que não subi em árvores. Posso não ter escalado grandes troncos e me pendurado em galhos altos e perigosos. Mas me lembro de um pequeno cajueiro de tronco torto, que eu conseguia subir. Pouca coisa. E de uma árvore na calçada, com tronco bifurcado, na qual eu conseguia subir no primeiro galho. Uma árvore pequena, recém plantada. E que cresceu com o tempo, hoje ela se posicionava estrategicamente protegendo a janela do meu quarto do sol da manhã. Pois, cortaram-a. Por sabe-se lá que motivo. Um instinto devastador da minha tia que abateu as árvores da calçada. Vejo seu tronco e seus galhos fatiados na rua e me lembro da árvore que eu nunca subi. Ou, que talvez eu tenha subido um pouco. Não sei afirmar tecnicamente. O sol agora bate forte na minha janela.

Andei Escutando (19)

Badly Drawn Boy – The Hour of the Bewilderbeast (2000): Um disco de excessos. Muitos instrumentos e muitas músicas. Não há fôlego para 18 canções. Cortasse meia dúzia de bobagens e seria um disco bem mais interessante. Melhores: Camping next to water e Another Pearl . Billy Bragg – Talking With the Taxman about Poetry (1986): As letras têm teor político/social e o estilo voz/guitarra de Billy Bragg unido ao eco (prova de que sim, esse disco é dos anos 80) cria um clima de sarau de estudantes de ciências sociais. Melhores: The Passion e There Is a Power in a Union . Creedence Clearwater Revival – Green River (1969): É um bom disco. Não tenho criatividade para falar sobre Creedence. Melhores: Wrote a Song for Everyone e Lodi . The Black Keys – The Big Come Up (2002): A estréia da minha mais recente banda favorita é puro blues/rock tosco. Melhores: Countdown e The Breaks . The Brian Jonestown Massacre – Thank God for Mental Illness (1996): O estilo do disco é mais parecido co...

Andei Lendo (3)

Futebol ao Sol e a Sombra, de Eduardo Galeano Tinha uma dívida com esse livro, que me forneceu algumas frases e exemplos para a minha monografia. Por falta de tempo, não o tinha lido por completo. Me surpreendi. Acho que teria me ajudado ainda mais no meu trabalho. Um livro até para quem não liga para futebol – que talvez entenda um pouco da magia na narrativa. O futebol ao sol – o que nos encanta e brilha. E a sombra – o que ninguém vê. As jogadas surreais. Há ainda um espaço para o futebol das trevas: a política. O Jornalista, o Escritor e o Aviador – de Aluízio Falcão Filho Ponto para o autor. O livro é uma bobagem assumida, despretensiosa. Admito que a narrativa levada em três vertentes – uma no passado, outra no presente e outra com os pensamentos do personagem principal – foi uma boa idéia. Mas, não precisaria da separação tipográfica, que subestima o leitor. Uma boa coleção de informações sobre Santos Dumont, mas fora isso, é apenas uma fantasia do autor que se projeta no protag...

Sobre o último do Radiohead

Todo fã de Radiohead é um sofredor. Sonhamos com Karma Police , Fake Plastic Trees e Creep . Acordamos com The Gloaming e Idioteque . Escutamos as músicas difíceis trezentas vezes, mais do que faríamos com qualquer outra banda, para tentar achar alguma beleza nas músicas estranhas, com batidas desconexas e vocais prolongados. Tentamos interpretar as letras indecifráveis de Thom Yorke. Porque é difícil falar mal do Radiohead. Todos os adoram. Seus discos são modernos, refletem o tempo em que vivemos – dizem os críticos. Tempos desconexos, talvez. Seus shows são ótimos. Mas são ótimos, justamente por que assistir Paranoid Android é uma experiência épica, uma revelação divina. Não é para pirar nas batidas de In Limbo . Desde 1997 esperamos por um novo OK Computer , o que é óbvio, jamais acontecerá. É um disco de uma beleza ímpar, uma melancolia própria, um dos grandes discos dos anos 90 e da história. Mas o Radiohead sempre nos trazia algumas boas surpresas. Acredito que tenha sido sur...

Nunca

Nunca conheci Sodré. Nunca conversei com ele. Apenas o via na sua banca de livros, que nunca comprei nem nunca parei para ver. Não sei de suas histórias, não sei de seus poemas, que nunca li. Sodré era tal qual o tio da xerox e a mulher da cantina, pessoas que habitavam o IL. Sodré morreu. Não me sinto triste com a notícia. Me sinto vazio. Com o despreenchimento de espaços de um cotidiano remoto, mesmo que ele não tivesse uma importância aparente.

Em um ritmo diferente

Quando Noel Gallagher deixou o Oasis, decretando o fim da banda, os membros restantes decidiram seguir em frente, deixando muitas dúvidas. Um ano depois eles anunciaram o estranho nome Beady Eye, o que indicava que alguma coisa realmente estava acontecendo. A principal dúvida era: Noel Gallagher sempre foi o líder criativo do Oasis e, por mais que os outros tivessem aumentado e qualificado sua participação nos últimos anos, Noel ainda era o responsável pelas melhores músicas da banda. Os outros quatro conseguiriam seguir em frente? Ou se perderiam? De certa forma a resposta para as duas perguntas é afirmativa. O disco de estréia o Beady Eye, Different Gear, Still Speeding é cheio de altos e baixos, carente de uma produção melhor. Faltou alguém para conter alguns excessos. O guitarrista Andy Bell é o único que tem experiência em liderar alguma banda relevante, no caso o Ride no começo dos anos 90. E ele se destaca em relação aos demais. Suas composições têm as melhores letras do grupo, ...

fragmento cambista

E ela sempre está lá, falando de justiça social, defendendo idéias que parecem utópicas. Pede ajuda para os que sofrem, os que passam fome. E ela então, revende ingressos pelo dobro do preço que pagou. Atitudes difíceis de serem compreendidas.

Andei Lendo (2)

O pequeno livro do Rock, de Hervé Bouehis A graça está justamente em ser um pequeno livro. Não é uma pesquisa aprofundada sobre a história do ritmo. Apenas um aficionado pelo gênero, que se através de quadrinhos lembra ano a ano de fatos históricos da música – não apenas do rock – muito pela sua memória afetiva. Claro, você pode achar que o autor fala muito do Serge Gainsbourg. Mas ele é francês, oras. Pode ter faltado alguém e com certeza, outra pessoa faria diferente. Mas é uma leitura rápida e divertida. Valeria a pena só pelas piadas com o Genesis (a banda, não a criação). The Beatles – A história por trás de todas as canções, de Steve Turner Faz uma grande viagem pelo universo dos Beatles. A evolução do grupo nas composições e as formas com que eles buscavam a inspiração. A história por trás de She Said, She Said , vale o livro. Taxistas, jornais, caminhadas no parque, piadas internas, multas no trânsito. Tudo virava música com o maior grupo da história – não discuta isso.

Decolagem

Sempre que vejo um avião decolando, me lembro da minha avó. Não que eu tenha uma boa metáfora sobre aviões, para explicar a vida. Não que minha avó tenha uma vida ligada a aviões, apesar de ter tido um irmão piloto. Eu era uma criança que gostava de ir a aeroportos. Gostava da longa viagem, dos muitos caminhos que levavam ao aeroporto - os mais curtos, sempre esburacados - e de ver as bagagens sendo despachadas, as pessoas indo para a sala de embarque e o avião decolando. E como tudo isso dava certo. Sonhei até em ser piloto de avião, meu primeiro desejo profissional. Mudei de idéia quando vi o vídeo de um primo de 2º grau que tirou o brevê. Jogavam óleo em cima do novato. A repulsa em ser banhado em óleo era maior do que a vontade de pilotar um avião, e eu desisti dessa loucura. Escolhi algo pior, o jornalismo. Mas, a minha avó. Numa época em que eu muito fui a aeroportos, várias vezes acompanhei a decolagem ao lado da minha avó. E ela sempre observava a posição da biruta. Para que la...