Karl Marx diria que a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. O filósofo alemão não teve tempo de elaborar o que aconteceu com a seleção italiana, que conseguiu a proeza de não se classificar para três Copas do Mundo em sequência. Algo que nunca aconteceu com seleções mais tradicionais. Vamos relembrar as últimas três desclassificações de algumas delas.
Itália
2026: As coisas já começaram a ficar estranhas para os italianos quando o sorteio colocou a Noruega no mesmo grupo. Para piorar, a Itália estrearia duas rodadas depois e justamente contra a Noruega em Oslo. A vitória nórdica por 3x0 colocou um abismo de nove pontos e dez gols de saldo que se mostraria impossível de ser descontada. Para piorar, os noruegueses seguiram atropelando adversários - só o Haaland fez 16 gols - de forma que a Itália chegou na última rodada precisando bater a Noruega por 9 gols de diferença. Perderam de 4x1. Haveria ainda a repescagem, mas após uma vitória sobre a Irlanda do Norte, a Azzurra perdeu para a Bósnia nos pênaltis.
2022: A Suíça foi sorteada como a principal adversária dos italianos no grupo C das eliminatórias europeias. Os confrontos entre os dois foram bem parelhos, com um 0x0 na Basiléia e 1x1 em Roma. Mas enquanto a Suíça só teve mais um tropeço, contra a Irlanda do Norte, os italianos não venceram em Belfast e acabaram empatando em casa com a Bulgária. A repescagem apontava para um duelo de titãs contra Portugal, mas os italianos acabaram eliminados no primeiro jogo dos play-offs, pela Macedônia do Norte. Gol de Trajkovski.
2018: A última vez que a Itália havia ficado de fora de uma Copa antes disso foi em 1958. A tetracampeã parecia ter vaga cativa na copa. Mas os resultados ruins dos últimos anos levaram os italianos para o pote 2 do sorteio das eliminatórias e as bolinhas colocaram a azzurra no grupo da Espanha. E aí os espanhóis tinham muito mais time e terminaram cinco pontos na frente. Curiosidade, um empate com a Macedônia do Norte acabou com as chances de classificação. O gol macedônio foi, sim, de Trajkovski. Nos playoffs apareceu a Suécia, já sem Ibrahimovic. Os nórdicos venceram por 1x0 em Solna e seguraram um melancólico 0x0 em Milão, colocando o mundo do futebol em choque.
Alemanha
1950: Os alemães estavam banidos das competições internacionais, devido ao seu envolvimento em um certo evento conhecido como Segunda Guerra Mundial.
1930: A Alemanha não quis participar do torneio. Ou seja, isso significa que eles nunca perderam a vaga por meio das eliminatórias.
Argentina
1970: Uma grande escola do futebol sul-americano, mas sem grandes resultados mundiais, a Argentina acabou de fora após uma campanha ridícula nas eliminatórias. Perdeu em La Paz para a Bolívia e em Lima para o Peru. Só empatou com peruanos em Buenos Aires e a única vitória foi um sofrido 1x0 sobre os bolivianos na Bombonera. Os argentinos assistiram o nosso tri pela televisão.
1954: Os argentinos não quiseram jogar devido a problemas internos.
1950: A Argentina, que estava brigada com a Confederação Brasileira, desistiu de participar de um grupo com Bolívia e Chile, o que levou os dois adversários a se classificarem para a primeira Copa do Brasil sem precisar entrar em campo. O futebol argentino viveu uma profunda crise nos anos 40 que se refletiu em sua seleção durante muito tempo.
França
1994: Em um grupo com Bulgária, Suécia e Áustria, não dá para negar que o caminho francês era complicado. Mas, após a derrota a Bulgária na estreia, os franceses emendaram sete jogos de invencibilidade (seis vitórias e um empate) e pareciam ter uma das duas vagas na mão. A confirmação poderia vir contra Israel na penúltima rodada, no Parque dos Príncipes, mas os azuis levaram um virada inacreditável nos últimos dez minutos - Atar marcou aos 90’ o gol da única vitória israelense no torneio.
Contra a Bulgária, novamente em Paris, bastava um empate para garantir a classificação francesa. Cantona abriu o placar no primeiro tempo, mas Kostadinov marcou duas vezes, sendo a segunda nos acréscimos do segundo tempo. A traumática derrota promoveu uma caça às bruxas na geração de Papin, Cantona e Ginola, sendo este último amplamente considerado o grande vilão. Isso acabou abrindo espaço para a renovação da equipe e montagem do elenco que conquistaria a Copa de 1998 em casa.
1990: Semifinalista das duas últimas edições, a França era uma das favoritas a conseguir a vaga, mesmo no ocaso da geração de Platini, Tigana e Giresse. Se não foi tão traumática quanto a de 1994, esta eliminação teve requintes de crueldade como um empate com o Chipre (único ponto cipriota), derrota de virada para a Iugoslávia e um empate na reta final contra a Noruega. Os resultados ruins levaram a desclassificação antecipada.
1974: Para sermos justos, neste momento a França estava longe de ser uma potência do futebol mundial e tinha apenas uma boa participação em Copas, na edição de 1958. Era infinitamente menos importante que Suécia, Tchecoslováquia, Hungria e até a Áustria. Dessa forma, não deve ter surpreendido a campanha ruim e eliminação diante da União Soviética.
Uruguai
2006: O Uruguai vivia seu pior momento futebolístico na história, antes de começar o seu processo de renascimento comandado pelo maestro Tabárez. Após uma campanha mediana nas eliminatórias, com direito a derrota em casa para o Peru e para a Venezuela, a celeste disputou a repescagem mundial diante da Austrália - repetindo o cenário de 2002. Após vencer o jogo de ida em Montevidéu, uma derrota pelo mesmo placar levou aos pênaltis em Sidney. Dario Rodríguez e Zalayeta perderam suas cobranças e os uruguaios chegaram a terceira ausência em quatro copas do mundo.
1998: Depois de ter ficado de fora da Copa de 1994, o Uruguai fez aquela que talvez tenha sido a sua pior participação em eliminatórias na história. Absolutamente frágil fora de casa, venceu apenas um dos oito jogos longe do Centenário. A eliminação veio de forma antecipada.
1994: o Uruguai de Francescoli embarcou em uma disputa cabeça a cabeça com o Brasil e a Bolívia pelas duas vagas do grupo das Eliminatórias Sul-americanas de 1994. Com campanhas muito parecidas, os times chegaram à última rodada empatados com 10 pontos, mas Brasil e Bolívia tinham vantagem no saldo. Na última rodada a Bolívia segurou o empate que precisava contra o Equador em Quito, enquanto que o Uruguai, vocês sabem, perdeu de 2x0 para o Brasil, no lendário jogo do retorno de Romário à seleção.
Inglaterra
1994: Semifinalista em 1990, a Inglaterra tinha boas expectativas para disputar a Copa do Mundo em sua ex-colônia americana. No entanto, acabou eliminada por Noruega e Holanda. Muito porque o English Team foi incapaz de vencer seus adversários em casa e perdeu os confrontos direto fora.
1978: Quis o sorteio das eliminatórias para a Copa da Argentina que que ingleses e italianos fossem adversários pela única vaga do Grupo 2. Foi uma disputa extremamente acirrada com os italianos vencendo por 2x0 em Roma e os ingleses pelo mesmo placar em Londres. O que fez a diferença foi o saldo de gols: 14 para a Azzurra e 11 para os ingleses. Na ponta do lápis, o prejuízo inglês veio no confronto contra a Finlândia. Enquanto os britânicos fizeram 2x1, os italianos fizeram 6x1.
1974: Campeã do mundo em 1966 e presente em todos os mundiais desde 1950, a Inglaterra vinha sendo presença garantida na Copa da Alemanha. Acabou ficando de fora do torneio na Alemanha em um grupo com Polônia e País de Gales. Empatou com os dois em casa, perdeu para os poloneses fora e a vitória em Cardiff não foi suficiente. A ótima geração polonesa embarcou para o país vizinho e conquistou um impressionante terceiro lugar.
Espanha
1974: Acostumada a jogar copas e não brilhar, a Espanha disputou um triangular contra a Iugoslávia e a Grécia por uma vaga. Espanhóis e iugoslavos venceram a Grécia, mas empataram entre si, terminando absolutamente empatados em pontos e no saldo de gols. Com isso, um jogo extra foi marcado para fevereiro de 1974 em Frankfurt e o bósnio Katalinski marcou o gol que levou a Iugoslávia para a Copa.
1970: Em um grupo com Bélgica, Iugoslávia e Finlândia, os espanhóis fizeram uma campanha apática. Conseguiram perder da Finlândia, não conseguiram vencer os belgas e terminaram em terceiro lugar no grupo, bem longe da vaga.
1958: Nas primeiras eliminatórias europeias da história, a Espanha acabou eliminada pela Escócia. Muito porque empatou com a Suíça em casa na primeira partida. Mesmo vencendo os escoceses por 4x1 em casa, uma derrota por 4x2 fora decretou a eliminação espanhola.
Holanda
2018: Vindo de um vice-campeonato e um terceiro lugar em sequência, a não classificação holandesa em 2018 surpreendeu. Só não ganhou tanto destaque porque a eliminação da Itália foi muito mais chocante, porque não fazia tanto tempo que eles ficavam de fora e porque eles ficaram de fora da Euro 2016 - sinal que a fase já era ruim. Sem substitutos à altura para a geração de Robben, Sneijder e Van Persie, eles não conseguiram substituir França e Suécia. Os holandeses perderam até para a Bulgária e não conseguiram se classificar para a repescagem por conta do saldo de gols. Uma derrota de 4x0 para a França pesou.
2002: Se em 2018 a geração holandesa não era das melhores, em 2002 eles tinham um grande potencial. Um time com Seedorf, Kluivert, Van Nistelrooy, Cocu e companhia. Mas, os laranjas sucumbiram em um grupo com Portugal e Irlanda. O que pesou aqui foi o confronto direto. A Holanda perdeu para Portugal fora, para a Irlanda em casa e empatou os outros dois jogos. Em um grupo no qual os três só perderam pontos entre si, isso foi crucial. A derrota por 1x0 para os irlandeses na antepenúltima rodada sacramentou a chocante eliminação.
1986: Ok, eles não eram mais a laranja mecânica, mas tinham Van Basten em plena ascensão. Perderam para a Hungria em casa e não conseguiram vencer a Áustria em Roterdã. Acabaram nos playoffs para enfrentar os rivais da Bélgica. Em um jogo de enorme rivalidade, os belgas carimbaram o passaporte para o México graças a um gol de Grün aos 40 do segundo tempo.
Bônus: A última vez fora de alguns dos habitués recentes
México
1990: Você deve estar pensando o que é que o México está fazendo nesta lista. Bem, eles são um dos maiores participantes do torneio e, levando em conta o nível histórico dos adversários que enfrentam na Concacaf, cada ausência é um fracasso enorme. Em 1990, no caso, eles ficaram de fora por conta da utilização deliberada de jogadores com idade adulterada em torneio sub-20, o que levou a FIFA a banir o México do futebol internacional.
1982: O México conseguiu ser eliminado por Honduras e El Salvador. Os salvadorenhos, no caso, levariam a maior goleada da história das copas, contra a Hungria no ano seguinte. Pois o México de Hugo Sánchez perdeu para El Salvador, empatou com o Haiti, com o Canadá e com Honduras.
1974: Na edição seguinte ao torneio que eles sediaram, o México acabou de fora da Copa, perdendo a vaga para o Haiti. Os mexicanos empataram com a Guatemala, com Honduras e levaram 4x0 de Trinidad & Tobago. Um fracasso incrível.
Portugal
1998: os portugueses nunca foram campeões da Copa nem chegaram na final. Mas são presença frequente neste século e faz um tempo que tem grupos qualificados. E entraram aqui porque este bom grupo de jogadores já existia em 1998. Eles já tinham Figo e Rui Costa, tinham feito uma boa Euro em 1996 e seriam semifinalistas em 2000. A base tinha sido campeã mundial sub-20 e disputado medalha em Olimpíadas. Por isso a ausência deles na Copa da França merece ser citada aqui. Terminaram em terceiro no grupo, atrás de Alemanha e Ucrânia. Os portugueses empataram os dois jogos com a Alemanha e trocaram vitórias com a Ucrânia. Mas, o que pesou foi não ter conseguido vencer Armênia e Irlanda do Norte fora de casa. Aliás, fora de Lisboa eles conseguiram apenas uma vitória, contra a Albânia, o que não foi suficiente para se classificar. Ficaram um ponto atrás da seleção de Shevchenko.
1994: A seleção portuguesa ainda não era tão forte. Mas dava para pensar em se classificar em um grupo que tinha Itália, Suíça e Escócia como principais adversários. Essa desclassificação veio com requintes de crueldade. Entrando na última rodada, Portugal e Itália tinham 14 pontos, mas a vantagem no desempate era dos italianos. A Suíça tinha 13. Os suíços atropelaram a Estônia para conseguir sua vaga e Portugal viu suas chances desaparecerem com um gol italiano aos 38 do segundo tempo. Foi um fim triste depois de uma bela arrancada.
Coreia do Sul
Em 1986 os coreanos retornaram a Copa após 32 anos e desde então estão sempre lá. Incrivelmente eles são o quinto país com mais participações consecutivas na Copa. A última vez que eles ficaram de fora foi em 1982 e não teve muito mistério: ninguém esperava nada e eles perderam o confronto direto para o Kuwait, ainda na primeira fase. No fim, os algozes conseguiram a vaga para o torneio na Espanha.
Japão
Hoje a participação do Japão é barbada. Eles estão em todas as copas desde 1998 e nesses anos todos a única vez em que eles chegaram a estar ameaçados foi em 2018, quando precisaram se recuperar de uma derrota na estreia - e mesmo assim conseguiram a vaga com um jogo de antecedência. Mas nem sempre foi assim e a última eliminação japonesa, em 1994, é famosa, em jogo que lá na terra do sol nascente é conhecida como a Agonia de Doha. Dois países asiáticos se classificaram para a Copa de 1994 por meio de um hexagonal. Numa disputa em que ninguém era de ninguém, os japoneses chegaram à última rodada liderando com 5 pontos, junto com a Arábia Saudita. Iraque, Irã e Coreia do Sul tinham quatro pontos e estavam na briga. A Coreia do Sul derrotou a do Norte por 3x0 e a Arábia Saudita venceu o Irã por 4x3. Mas uma das vagas estava ficando com o Japão, que vencia o Iraque por 2x1 até os 45 do segundo tempo, quando Omran empatou o jogo, provocando uma eliminação devastadora. Memória marcante: a foto dos sheiks no topo do estádio, enquanto os japoneses se contorciam em dor no gramado.
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