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Genética

Eu estava no Ensino Médio quando formulei uma teoria que basicamente dizia "genética é uma merda". Entre aulas que mostrava cruzamentos de fenótipos, genes recessivos, X e x e análises sobre a probabilidade de alguém ter olho azul, eu cheguei a essa conclusão. Algo pensado há muitos anos e que basicamente significa que você vai herdar tudo quanto é coisa ruim que for possível. Acho que comecei a pensar nisso quando eu descobri que tinha colesterol alto aos 10 anos. "Igual ao pai" falaram. Meus triglicerídeos sempre estiveram em níveis alarmantes, mesmo nos momentos mais saudáveis da minha vida. Depois vieram a pressão alta, também paterna. Os óculos de grau. É preciso ficar atendo ao câncer de próstata e ao câncer de pele, de origem paterna, assim como a diabetes. Sem contar que seus dois avôs tiveram derrames. E o refluxo, igual ao da família da mãe. Veja, ninguém nunca surge por aí ostentando a visão perfeita que veio da mãe. Ou um sistema cardiovascular impecável...

Os discos que The Doors lançou sem Jim Morrison

Imagine, um disco do The Doors sem o Jim Morrison. Que sacrilégio, que blasfêmia. Eis algo difícil de raciocinar, afinal, o Jim Morrison era o Doors. Tudo bem que boa parte da graça das músicas estava no teclado hipnótico do Manzarek, mas a banda era o Morrison. Um cara bonito, com presença de palco, carismático, chamativo, que cantava bem, era polêmico, autodestrutivo e tinha uma veia poética. Sem ele The Doors não seria nada. É como um museu sem sua obra principal, ou uma dessas comparações feitas pela Adriana Calcanhoto. Mas essa blasfêmia é real, como não. Três meses após a morte de Jim Morrison, os três membros restantes colocaram na praça Other Voices , disco que é bem verdade, começou a ser gravado ainda antes de um Morrison bêbado, gordo, barbudo e deprimido ter uma overdose de heroína na banheira do apartamento onde vivia no Marais, em Paris. Other Voices parece um disco de demos, com algumas bases boas mas que parecem não ter sido desenvolvidas o suficiente. A própria banda ...

Tudo se aposta

 No mundo das apostas esportivas é possível apostar em vencedores, perdedores, empatadores, em placares, em número de faltas, em número de escanteios, em número de laterais, em cartões, em expulsões, em defesas, em gols sofridos. É possível combinar mais de uma estatística para faturar números ainda maiores. É possível apostar pequenas quantidade, assim como grandes quantidades. É um mundo à margem da lei, no qual é possível inclusive manipular a realidade para obter vantagens. É isso que mostra a investigação iniciada no Ministério Público de Goiás sobre aliciamento de atletas por apostadores. Quase todo grande escândalo esportivo envolve apostas. No futebol brasileiro nós tivemos o caso da máfia das loterias nos anos 80, depois o escândalo do juiz Edilson em 2005. Só que, esses casos, envolviam placares de jogos, arranjos mais complexos. Hoje em dia, quanto tudo se aposta, a manipulação é quase inevitável. Faz tempo que a gente escuta notícias de manipulação de resultados em jogo...

Faixa de pedestres

Em plena Avenida dos Trabalhadores um jovem trabalhador negro se aproxima da faixa de pedestres segurando a sua bicicleta. Ainda não eram 7h30 da manhã e o trânsito começava a ficar pesado na semana em que muitas férias se encerravam. Um carro para, ele avança pela faixa da esquerda. Na faixa central uma caminhonete diminuí a velocidade e o trabalhador segue sua travessia. Era impossível não notar sua caminhada para o outro lado da rua. No entanto, a caminhonete apenas diminuía a velocidade para passar por cima da faixa, sobe a faixa no momento em que o ciclista pedestre entra no mesmo espaço, aquele espaço que dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo. O motorista da picape atinge a roda dianteira do ciclista que com o impacto se desequilibra e quase caí no chão. Revoltado ele gesticula contra o motorista, que pede desculpas constrangidas. Sem maiores danos físicos, exceto o susto da quase tragédia, o ciclista segue para a calçada e o motorista segue seu caminho. Eis um momento que ...

Pelé - Arte e Força

O futebol sempre foi um embate entre arte e força. Esquadrões artísticos, como a Hungria de 54 ou o Brasil de quase desde sempre se debatiam contra os panzers alemães, ou os carrascos uruguaios. Mas além das disputas coletivas, há a questão individual. No futebol, há quem seja o touro e quem seja o toureiro. Garrincha, Maradona, Messi, Tostão, Bergkamp, Zidane, Rivaldo e outros encarnam a figura do toureiro. São a arte. Jogadores que transformam o espaço de um guardanapo em um latifúndio. Dribles milimétricos ou elásticos, transformam o adversário em parte do espetáculo, em coadjuvantes da magia. Parte da graça está justamente na forma como deixam o adversário para trás na forma de uma ilusão de ótica, aplicam passes improváveis e espaços aparentemente inexistentes. O combate individual faz parte do espetáculo. Do outro lado, Mbappé, Cristiano Ronaldo, Ronaldo, Kaká e outros são os touros. Arrancam em velocidade e deixam os adversários anônimos para trás, caídos no chão, desolados dian...

Balanço da Copa

Seleção da Copa: Emiliano Martínez: Ninguém foi tão bem na primeira fase quanto Szczesny, depois a Copa parecia ser do Bono, ou do Livakovic, poderia até ser do Lloris. Mas curioso como um goleiro que não fez tantas defesas se sobressaiu. Porque não foram muitas defesas, apenas as essenciais. Ao impedir um drama desnecessário contra a Austrália e a virada francesa, e ao engolir adversários na cobrança por pênaltis, Dibu Martínez foi o melhor goleiro do mundial. Denzel Dumfries: Nenhum lateral direito me convenceu plenamente, incluindo Hakimi - jogou muito mais nos clubes, sua lembrança me pareceu uma homenagem a um dos nomes mais famosos da surpresa da Copa. Fico com o holandês, dono da melhor atuação de um lateral direito na copa, nas oitavas contra os EUA. Dayot Upamecano: Líder da zaga francesa, iniciou muitas jogadas da equipe e foi fundamental para garantir a passagem da França até a final. Josko Gvardiol: Esqueça que o Messi fez com que ele parecesse um participante de reality sh...

O Jogo do Século

Já diria Mauro Cézar Pereira, que o futebol é a melhor invenção do homem. Argentina e França construíram ontem um épico humano, que nenhuma mente teria condições de imaginar ou pensar. Um drama baseado apenas na aleatoriedade que o futebol possibilita. Um jogo controlado pela Argentina até os 20 minutos do segundo tempo, que em pouco tempo se transformou em uma jornada extraordinária. O Jogo do Século. O Jogo do Século, do Século 20, foi disputado entre Alemanha Ocidental e Itália em 1970 e está eternizado em uma placa no Estádio Azteca, na capital do México. Era uma semifinal de Copa do Mundo, vencida pela Itália por 4x3 na prorrogação. Um jogo para história, que qualquer comparação com ele parece um sacrilégio. Quem já teve a oportunidade de assistir essa partida, poderá compreender várias semelhanças com o jogo de ontem. Sob o sol sempre forte do México e a altitude da Cidade do México, a Itália abriu o Placar logo no começo, com Boninsegna. A partida seguiu em um ritmo normal, por ...

Sebastian Vettel

 A primeira vez que ouvi falar de Sebastian Vettel - nisso não me diferencio da maior parte do mundo - no GP da Turquia de 2006. Eu sempre comprava a revista Racing e foi por ela que eu fiquei sabendo que o jovem alemão havia se destacado em seu primeiro treino com um carro de Fórmula 1, liderando os treinos livres de sexta-feira em Istanbul.  Um fenômeno parecia surgir e ele se transformou em presença constante nos treinos livres. Quando Robert Kubica sofreu um grave acidente no Canadá, no ano seguinte, Vettel foi chamado para substituí-lo nos EUA e, pela primeira vez, exercitei um hábito que se tornaria nos anos frequentes. Ficar de olho na tabela para saber a posição de Vettel na corrida. Largou em sétimo e terminou em oitavo, marcando um ponto. Quatro corridas depois assumiu uma vaga de titular na Toro Rosso. Em sua quinta corrida, um encharcado GP do Japão, liderou suas primeiras voltas, em uma equipe que ainda não havia marcado pontos no campeonato. Estava em terceiro, q...

A Conta das Pesquisas não fecha

Claro que há várias ponderações. Temos as abstenções, o voto útil, as dificuldades proporcionadas pela ausência de dados mais consolidados sobre a população uma vez que o Censo não é realizado há 12 anos. Mas, mesmo com tudo isso, não dá para negar que os dois principais institutos de pesquisa erraram suas projeções para a disputa pela Presidência da República. Sobre isso, tenho duas hipóteses meramente especulativas. A observação dos dados de pesquisas até as eleições de 2006 mostram curvas muito claras de crescimento e que dos candidatos, que inclusive batia com o que se percebia nas ruas. O movimento para votar em Alckmin e impedir uma vitória de Lula no primeiro turno em 2006. A queda de Ciro Gomes em 2002 e indo além, o crescimento de FHC em 1994. A pesquisa de 2010 é a primeira a mostrar um padrão diferente de crescimento de última hora, que nesse caso não veio de nenhum dos dois primeiros colocados. Nesta eleição, Dilma Rousseff liderou todas as pesquisas, mostrando sempre boas ...

Federer

Uma das primeiras impressões que eu tive de Roger Federer é que ele era um babaca. Cabelinho comprido, uma cara que nunca era de felicidade, nem de tristeza. Ele enfrentava Flávio Saretta pela primeira rodada do Australian Open em 2003 e em determinado momento mandou a bola no peito do brasileiro. Aquilo era muito babaca. Àquela altura, Roger Federer era um desses jogadores que estava para acontecer. Talentoso, jovem, já era Top 10, mas não tinha feito nada de especial no tênis. Duas quartas de final em um Slam em 2001 em 2002 nem isso. Nesse mesmo Australian Open, após superar Saretta, ele passaria por dois tenistas desconhecidos antes de ser eliminado por David Nalbandian na quarta rodada. Àquela altura, Roger Federer parecia léguas atrás de seus contemporâneos, Hewitt, Safin e Ferrero (sim, ele é contemporâneo desses três). Talvez pudesse ganhar alguns torneios, talvez ficasse nesse eterno meio de tabela de ranking. Poderia ser um Fernando González, um Xavier Malisse, um MIkhail You...

Reta final das pesquisas eleitorais em outros anos

Faltando pouco menos de um mês para as eleições presidenciais, Lula segue na liderança das pesquisas mantendo uma vantagem que varia entre 8 e 13 pontos sobre Jair Bolsonaro. Parece que o jogo está amarrado e caminhando para a prorrogação, mas não custa buscar no passado possíveis respostas para o que pode acontecer. Afinal, o que diziam as pesquisas eleitorais há mais ou menos um mês da disputa em anos anteriores? Vamos aos números do Datafolha. Em 1994 a eleição se resumiu a uma disputa entre Fernando Henrique Cardoso e Lula, com o naufrágio das candidaturas de Orestes Quércia, Espiridião Amim e Leonel Brizola. Em 30 de agosto de 1994, o cenário era o seguinte: - FHC com 53,6% - terminou com 54,2%. - Lula com 27,4%, terminou com 27%. Ou seja, no último mês de disputa nada demais aconteceu e os candidatos mantiveram seus votos. Neste ano, Lula começou a disputa eleitoral na frente, mas FHC começou a virar o jogo no começo de julho e já em agosto aparecia com uma vantagem que não perde...

Serena

Uma simples imagem de Serena Williams disputando uma final em Wimbledon representa mais do que qualquer palavra a sua importância para o tênis. Serena sempre foi uma força da natureza. Um clichê esportivo tão repetido, mas que não deixa de ser uma verdade. Seu tênis vinha do mesmo lugar de onde vêm o vento, a chuva e o sol. Seu tênis soprava pela quadra e varria as adversárias. Sua força sempre de destacou e durante muito tempo foi alvo de críticas racistas, como se suas qualidades fossem uma injustiça perante as oponentes, que ela geralmente engolia sem piedade. Quantas, diante dela, não pareciam apenas crianças perdidas procurando o colo da mãe. Era força, mas era técnica, era confiança. A autoconfiança de Serena muitas vezes foi vista como arrogância, mas não deixa de ser uma maneira de se afirmar em um ambiente muitas vezes hostil. Ao anunciar sua aposentadoria após o US Open, o mito se desfez e surgiu o ser humano. Um corpo que também se cansa e que um dia não consegue mais fazer ...

Percepção dos filmes aos longos dos anos

André Barcinski anunciou que o filme "O Quarto do Filho" está em exibição na plataforma Mubi na internet. Assisti esse filme lá pelos idos de 2003 nos canais da HBO, quando estava para fazer 16 anos e foi um tanto quanto traumático. O filme é excelente, mas seu enredo é das coisas mais genuinamente tristes que a mente humana poderia imaginar. Os pais perdem um filho adolescente e toda sensação de tristeza, remorso e culpa é materializada no quarto vazio do rebento. O quarto vazio do filho que morreu. Difícil imaginar algo mais triste. Tão triste que fiquei me sentindo mal por alguns dias. Sempre que em outras oportunidades passava por um canal que reproduzia o filme, mudava rapidamente, para não ter nenhum contato com essa obra tão aterrorizante. Diante do anúncio de Barcinski, respondi que é preciso estar com o psicológico em dia para encarar essa pedrada. E ele respondeu que de fato, agora que ele tem filhos o filme bateu ainda mais pesado. Pensei em mim, então, que tenho u...

Jô Soares

 Houve um tempo, hoje distante, em que a televisão era a nossa principal fonte de informação. E entre todos programas de TV, poucos eram tão relevantes quanto o do Jô Soares. Suas entrevistas repercutiam no dia seguinte no colégio e na faculdade, como nenhuma atração. Ninguém ia perguntar se você viu o Jornal, mas se você viu o Jô. Ficar acordado para assistir seu 11h30 (horário fictício), era quase uma prova de vida adulta. Artistas, intelectuais, anônimos curiosos, cientistas. Aprendi muita coisa vendo o Programa do Jô. Alguns momentos são inesquecíveis, como a entrevista do José Vasconcellos, que vi ao vivo. Sua morte destaca seu aspecto humano e generosidade. Me traz a nostalgia da época em que todos tínhamos referências em comum, de como isso ajudava a vida em sociedade.