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Postagens

Os tipos de chuva

Os dias são, em sua maior parte, secos. O céu permanece nublado, com nuvens distantes que parecem mais feitas de algodão do que de água. A chuva chega repentinamente, sem hora marcada, em qualquer momento do dia. Em poucos minutos o céu fica negro e a água começa a cair, mas não cai de uma maneira normal. Não são gotas esparsas que molham o chão de maneira uniforme. A chuva caí com tanta força e intensidade que sempre parece atingir proporções bíblicas. As gotas formam uma densa cortina, que impede a visão do horizonte e as ruas logo se convertem em cachoeiras. Chove tanto, que a impressão é de que nunca antes na história da humanidade uma chuva assim caiu sobre o solo. Impressão que aparece todo dia, numa espécie de Déjà-vu aquático. A chuva acaba e em poucos minutos o céu volta a ficar azul com suas nuvens distantes e inofensivas. O dia que parecia fadado as sombras, logo se mostra surpreendentemente ensolarado e a chuva parece ter sido apenas uma delírio coletivo.

Uma temporada que promete ser sofrível

Tá certo, foi apenas uma corrida, um final de semana de disputa. Mas, já deu para perceber que a temporada de 2015 tem tudo para ser uma das piores da história da Fórmula 1. A Mercedes, por méritos próprios, fez um carro disparadamente melhor do que os outros. Não vai dar tempo de nenhuma equipe reduzir essa distância e a Mercedes só não ganhará todas as corridas do ano por conta de algum problema mecânico, ou uma corrida maluca qualquer. Ok, em 1988 a McLaren vivia exatamente na mesma situação e essa foi uma das melhores temporadas de todos os tempos. Naquele ano, a McLaren tinha dois grandes pilotos que promoveram um grande duelo na pista. Isso não deve acontecer agora. Lewis Hamilton é muito mais piloto do que Nico Rosberg. E agora, sem a pressão pelo título e para confirmar sua superioridade e com Nico levemente abatido pelo último vice-campeonato, Hamilton deve subjugar o companheiro. O britânico é, desde já, favorito a bater recordes de vitórias na temporada. A última tem...

Akira

Sempre me lembrarei do dia em que fui conhecer a casa da minha tia em Florianópolis e reencontrei os cachorros da minha tia após seis meses. Em outros tempos eu via os cachorros diariamente e eles sempre pulavam em mim. Akira era o mais bobo de todos e sempre ia correndo em minha direção, quando eu abria o portão. Chegava arfando, de uma maneira que lembrava um dinossauro, diziam amigos meus. Chorava e me sujava com sua baba volumosa. Um dia, Akira entrou em um carro e foi para Florianópolis junto com a família. Dizem que cães não tem memória muito privilegiada, nem noção do tempo. Mas, naquele dia em Florianópolis, seis meses e dois mil quilômetros depois, Akira me reconheceu. Se levantou com toda a dificuldade que a idade já lhe impunha e se arrastou na tentativa de subir uma escada até onde eu estava, chorando como sempre. Obrigado Akira e bom descanso.

O dia em que tudo aquilo se realizou para o Athletic de Bilbao

Quem gosta de futebol geralmente tem um time pelo qual ele torce em toda e qualquer oportunidade. Os outros times podem ser mais ou menos odiados de acordo com uma série de fatores. E existem aqueles times contra os quais ninguém consegue ser contra. Nada é pior do que não ser odiado no futebol. Só não é odiado quem não ganha, quem não levanta taças, quem é um mero coadjuvante para conquistas alheias. Isso dói para o torcedor e deve doer ainda mais para aqueles que poderiam ser grandes, mas acabaram não sendo. Existem alguns times espalhados pelo mundo que poderiam ter se tornado alguma coisa, chegaram a ser alguma coisa mas em determinado momento da história se perderam. Viram seus adversários continuarem crescendo, enquanto ele permanecia estagnado. Passaram a viver de glórias esporádicas enquanto os adversários conquistam o mundo. A Portuguesa em São Paulo, o América no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco, o Ypiranga da Bahia, Tuna Luso do Pará, Ferroviário do Ceará. Div...

Eu não queria ser Jakob Dylan

Eu não queria ser Jakob Dylan. Existem diversos motivos para não se querer ser Jakob Dylan. Não deve ser fácil ser filho do Bob Dylan. Não deve ser fácil porque as mais diversas fontes informam que o velho Bob não é das pessoas mais fáceis do mundo. Difícil saber se ele foi um pai presente ou não, mas é fato que escreveu Forever Young para Jakob, o que já não deixa de ser interessante. Mas se a história de Bob já é fascinante, com suas conversões e indas e vindas, acompanhar isso dentro de casa deve ser estranho. Mas ainda pior é ser filho de Bob Dylan e virar músico. Porque jamais haverá outro músico como Bob Dylan e a pressão deve ser terrível Sim, ser filho de Bob Dylan tem lá sua vantagem, de chamar a atenção da indústria. Um disco do filho do Bob Dylan por si só já é um acontecimento e desperta interesse, mesmo se o disco for uma porcaria. Mas, mesmo se for bom, muita gente jamais vai reconhecer méritos e ver apenas o nome como motivo para o interesse. Acontece isso com os...

Birdman

Birdman, o filme ganhador do Oscar desse ano, é antes de mais nada, uma grande tiração de sarro com a indústria de Hollywood. Sobre o ridículo de filmes de super-heróis, as cifras milionárias pagas aos artistas, a idolatria besta. E não deixa de ser uma tiração de sarro do mundo do teatro. Com seus clichês, seus artistas que acreditam estar em um plano superior, os críticos que detonam peças sem ver. Uma tiração de sarro com o mundo atual, os Trend Topics, os "virais". Mas, além disso, Birdman é um filme sobre a tentativa de fazer sentido. Do artista rico e famoso, mas que quer provar que é um bom ator. As atrizes coadjuvantes realizando os seus sonhos. A filha que tenta escapar das drogas. Todos eles querem ser relevantes, mas 80% do mundo jamais vai conseguir ser relevante. Tudo isso filmado em um plano sequência eterno (se eu não me engano são apenas dois cortes de imagem no filme inteiro), boas atuações e muita piração. O final não deixa de ser surpreendente também e ...

Desconexões sobre Beatles

Escutei a discografia dos Beatles no carro e senti vontade de falar sobre Beatles. Como não sentir vontade de falar sobre Beatles após escutá-los? Mas o que ainda pode ser dito sobre Beatles? O que eu posso falar ainda sobre Beatles? Que o começo com I Saw Her Standing There é genial? Que o final, lá em The End é ainda melhor? Que suas músicas, com dois minutos de duração impressionam porque parecem durar uma vida? Eleanor Rigby tem apenas dois minutos, mas conta uma saga que faz jus a história da humanidade. Sobre como eles eram bons instrumentistas? Não eram virtuoses, mas funcionam bem como banda. Escute eles ao vivo na BBC e veja como os instrumentos podem ser percebidos, cada um em sua singularidade e todos em unidade. Como o Ringo era competente. Que apesar de tudo, eles deram mole nas escolhas de singles. Que Lady Madonna não é melhor que 20 músicas do White Album e Ballad of John & Yoko é bobinha? O que mais eu poderia falar? Que, caramba, em 1963 eles c...

Entre 140 caracteres e o infinito

Por vezes eu tenho uma ideia para escrever alguma coisa. Resolvo tuítar essa ideia e percebo que ela não cabe em 140 caracteres. Poderia dar dois tuítes? Penso um pouco e isso daria um post. Começo a desenvolver a ideia para um texto nesse espaço. Penso mais um pouco e logo vejo: isso poderia dar um post no CH3. Post no CH3 tem o costume de ser gigantescos  e a ideia para lá. Em outros casos, o processo é o inverso. Tenho uma ideia para um post no CH3. Tento desenvolver e não dá muito certo. Penso em escrevê-la aqui, mas a coisa não vai. O que acontece? Vai para o Twitter. E nem ocupa os 140 caracteres. A diferença entre 140 caracteres e o infinito não é tão grande assim. Esse post mesmo é um exemplo.

Sapos da caverna

De vez em quando aparecem uns putas sapos aqui em casa. Criaturas tão imensas que acredito até que sejam pré-históricas. Sapos que descendem diretamente dos dinossauros. Criaturas tão imensas e mal encaradas, que até o mais viril dos homens sente algum temor quando percebe que ele está no meio do seu caminho. Sempre que vejo esses sapos, com cara de Astolfo, me pergunto de onde eles surgiram. Olho o terreno aqui de casa e ele é todo murado, sem nenhum buraco nesse muro. Temos dois portões com frestas inferiores, mas logicamente frestas em que um bicho daquele tamanho não conseguiria ultrapassar. A hipótese mais lógica, é que os anfíbios chegam por aqui quando tem um tamanho menor, então crescem e evoluem até se transformar nessas criaturas parrudas. Ok. Mas Lavosier e todos nós sabemos que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Para esse sapo chegar nesse tamanho ele teve que ter alguma fonte de alimento. Dizem que eles se alimentam de insetos. Será que temo...

Nunca sei se já escrevi

Eu já escrevi muito na minha vida. Uma frase presunçosa para um cidadão de 27 anos, mas que carrega um fundo de verdade. Uma frase que também não é nenhuma surpresa para quem é jornalista e vive basicamente de escrever. Não sei dizer quantos textos escrevi nos meus tempos de jornal, nos meus tempos no Governo do Estado e em um ou outro bico que já fiz. Mas tudo bem, nesses casos, agi apenas como um operário das palavras, tentando transcrever matérias por outros e apuradas por mim para o papel. Mas e os textos que surgiram a partir de ideias basicamente minhas? São mais de mil no CH3. Aqui já são mais de 500. Outras tantas em um blog que tive na adolescência, em colunas que escrevi aqui e ali aonde surgia uma oportunidade. Tento escrever com alguma rotina e a única exigência é não me repetir em temas. E isso é difícil. Já são tantos textos por aí, que nunca tenho certeza absoluta se o texto é inédito ou não. Ontem mesmo, enquanto escrevia sobre o Foo Fighters na academia, pensei...

Foo Fighters: Banda de Rock Padrão

Sexta-feira de manhã, chego a minha academia e ela está completamente vazia. A dona do estabelecimento inclusive cochilava, deitada, em um desses aparelhos de exercícios aeróbicos. A TV ligada no Bom Dia Mato Grosso, num volume quase encoberto pelos ventiladores. Assino meu nome na lista de frequência e vejo que realmente sou o único no local. Quando passo pela catraca, ela se assusta e acorda, envergonhada. Não havia como negar que estava dormindo e disse que estava ali desde as seis da manhã, sem nenhuma viva alma por lá. Disse que tudo bem e segui para a bicicleta ergométrica, enquanto ela voltava para seu posto na "recepção". Então, ela colocou uma música para tocar. Música de academia é aquela coisa: remixes dos mais variados, CDs do David Guetta e outras coisas pop, que não sei exatamente quem é que canta. Digo que me mantenho atualizado sobre os lançamentos de Rihanna e similares pela academia. Não dessa vez. Quando a música começa a tocar logo reconheço que é T...

500 dias depois: Abertura do festival do Japão

Em uma vida de assessoria de imprensa de um órgão público, você pega muitas pautas furadas. Inúmeras, principalmente nas pautas noturnas. Uma gama enorme de jantares protocolares, nos quais você tem que se esforçar para espremer algum conteúdo. Vez por outra surge uma pauta legal. O Festival do Japão se enquadra nesse caso, por mais que o “legal” seja uma maneira benevolente de se falar. A pauta é legal, mas, se lhe fosse dada a opção, você preferiria ficar em casa. Estar lá na “pauta legal”, significa apenas que aquele não é o pior dos mundos. O legal do Festival do Japão é a observação de um espaço completamente diferente. Não tenho conhecimento se a colônia japonesa por aqui é grande. Restaurantes japoneses não são exatamente populares, eles passam aquela imagem de sofisticação. Pessoas com paladar refinado conseguem mandar para dentro algum daqueles sushis metidos a besta com cream cheese e cenoura. Pessoas chiques vão ao restaurante japonês da cidade utilizando camisas Brooksfie...

Coca Dois Litros

Chegando na rotatória eu percebo um corpo estranho no chão. Tenho que dizer que sempre tenho dificuldade em reconhecer objetos caídos no asfalto e tenho uma tendência surrealística de interpretação. Folhas secas de coqueiro me parecem um cadáver de um cavalo, pedaços de pano parecem sempre algum animal espatifado. Não sei dizer o que eu achei que era, mas logo percebi que se tratavam de duas garrafas. Quando cheguei perto foi possível perceber que eram duas garrafas de coca dois litros caídas no chão. Uma ainda estava envolta na sacola plástica, a outra se perdera. Não haviam se rompido e, pensando nisso agora, amaldiçoo aquele dia em 1999 quando deixei uma garrafa de coca cair no chão do Big Lar e ela explodiu. Poxa vida, seria muito mais fácil uma garrafa estourar a cair de um veículo em alta velocidade no asfalto. As garrafas estavam suadas, sinal de que a Coca estava gelada. A espuma se acumulava, prova de que a queda ainda era recente. Pensei por um instante que poderia aconte...

O gol do ano

O gol que James Rodríguez marcou na partida contra o Uruguai nas oitavas de final da Copa do Mundo foi realmente espetacular. Quando ele marcou esse gol, todos ficamos impressionados. Já estávamos impressionados com o garoto que arrebentou na primeira fase e havia marcado um golaço contra o Japão, aqui em Cuiabá. Todos pensamos que seria o gol mais bonito da Copa. Mas o tempo, ah, o tempo. Ele não deixa margem de comparação. O gol de Van Persie foi, talvez não mais bonito, mas muito mais espetacular. Chutes com o de James são raros, mas acontecem, já vimos por aí. O peixinho voador de Van Persie é único. Ninguém nunca viu nada parecido. O lançamento de quarenta metros, a corrida solitária, o salto no ar e a cabeçada que encobriu Casillas. Plástico e espetacular. O gol do ano, do século, o gol de uma vida. Um gol simbólico. Não há como negar, esse foi o gol que deu início a Copa do Mundo. Se o torneio estava com um clima estranho entre protestos, aberto com um jogo mediano do Brasil...