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Cinco reflexões sobre as eleições

"Uma câmera na mão e um ódio na cabeça". Eis um lema que definiria bem vários dos candidatos que tiveram votação recorde no último domingo. Uma eleição que pode ser apenas um ponto fora da curva de nossa história recente ou uma mudança de paradigma na forma de se realizar uma campanha - o que é mais provável. O impacto das novas formas de comunicação sobre a sociedade logicamente se refletiria na política. Eis alguns pensamentos sobre o que se passou.

1) A internet venceu a televisão
Antes da campanha eleitoral foi posto que o embate entre Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro serviria como um tira-teima entre a importância da internet e da televisão na disputa. (Vale lembrar que a primeira pesquisa Ibope mostrava Bolsonaro com 20% dos votos e Alckmin com 9%). O resultado mostra que a internet venceu.

Sim, acredito que o eleitor ainda acompanhe a TV, alguns vejam as propagandas e debates, se informem e formem opiniões por lá. Mas, o equívoco é colocar a disputa internet x televisão como se fosse "Jornal Nacional x G1" ou "propaganda na TV x propaganda no Youtube". Não se trata de colocar o material da TV nas redes sociais, mas de produzir conteúdo exclusivo para lá. Afinal, o que são quatro minutos na TV, quando você tem 24h para explorar o eleitorado no WhatsApp?

Muitos dos candidatos ungidos pelo voto popular transformaram suas vidas em reality shows transmitidos nos Stories. A gravação de vídeos virou parte do ofício do político e uma maneira de construir sua imagem pública. Os vídeos mais simples e toscos se tornam ainda mais populares, porque parecem autênticos (a disputa entre propaganda na TV x o vídeo de celular pro grupo do zap se assemelha a batalha entre Vai Malandra e MC Loma pelo posto de hit do carnaval). O eleitor se sente próximo do candidato. A enxurrada de conteúdo transmite presença e trabalho. A televisão pode ratificar opiniões, mas é o WhatsApp que está lá, diariamente e silenciosamente construindo a visão de mundo do eleitor.

Também não é a toa que muitos candidatos mais tradicionais e que não se adaptaram a essa linguagem acabaram excluídos. A sensação de trabalho não é mais transmitida por atender pessoas em seu gabinete 24h por dia, mas por divulgar isso de maneira incessante. Uma live no Facebook vale mais do que o serviço feito em si.

(Ainda há toda a questão ética das Fake News no WhatsApp. Lógico que é crime, mas do ponto de vista pragmático, ganha eleição. É como a compra de votos. Chegará o momento em que todo mundo negará, todo mundo reclamará, todo mundo condenará, mas todos usarão).

2) A indignação é o maior capital que um político pode ter
O brasileiro se tornou um povo cansado e indignado com tudo isso que está aí. Corrupção, ineficiência do serviço público, violência, mudanças de valores da sociedade que parecem uma imposição para alguns setores. Bolsonaro e seus Bluecaps representam um fenômeno do candidato que gasta pouco dinheiro, mas consegue se eleger, enquanto políticos experientes não conseguiram se reeleger mesmo recebendo grande verba do fundo partidário. Para quê tanto dinheiro se a melhor moeda para comprar um eleitor nos tempos atuais é a indignação? E se você tem a internet a sua disposição para divulgar toda sua revolta, melhor ainda: uma câmera na mão e um ódio na cabeça e o mundo é seu. Sim, não dava para imaginar que o fenômeno dos youtubers não iria se reproduzir na política.

3) O voto útil é uma realidade implacável e se juntou ao voto de protesto
Um povo indignado é um povo que guarda rancor por muitas coisas e odeia muita coisa. Assim, o ódio é decisivo na escolha do voto, uma tentativa de evitar o que se considerar o pior. Por isso, o chamado voto útil será cada vez mais forte.

Pode parecer que as pesquisas estão errando cada vez mais e isso ajuda a tirar a credibilidade dos institutos e jogar o país nesse mar de desilusão democrática e institucional. Mas, de acordo com o Datafolha, 12% dos eleitores definiram seu voto no dia da eleição. No caso do Juiz Witzel no Rio de Janeiro, foram 21% dos eleitores que definiram por ele nos últimos dois dias.

O eleitor parece estar cada vez mais de olho nas pesquisas, em busca de uma oportunidade, esperando até a última hora para tomar uma decisão. Veja o caso de Minas Gerais: o eleitor não queria Fernando Pimentel, mas também não tinha paixão por Antonio Anastasia. Os dois ficaram se arrastando ali na proporção de 30% x 20% pró-PSDB, sem nenhuma perspectiva de terceira via. Lentamente Romeu Zema foi crescendo, até chegar na casa dos 10%. Então, o voto anti-PT se concentrou nele, assim como o voto Anti-Aécio, o voto Anti-Sistema, enfim, o voto de protesto. Zema se transformou na oportunidade de matar dois coelhos em uma cajadada só e é o virtual próximo governador mineiro. (A população parece esperar até a última hora para escolher aquele que tem maior capacidade de derrotar o inimigo. Que o digam as derrotas de Dilma, Eunício e outros para o Senado).

Foi assim com Dória em 2016. Foi por isso que Marina Silva, Álvaro Dias e Geraldo Alckmin viram seus votos murcharem na última semana da campanha e no futuro, toda e qualquer campanha terá que levar esse cenário em consideração. Sempre haverá um despejo de votos de última hora, mesmo que com o objetivo de evitar um segundo turno. A fragmentação de candidaturas acabará por dizimar o lado mais fraco.

4) A campanha nas ruas já não é mais a mesma
As campanhas geralmente se concentravam em três frentes: 1) propaganda na TV e exposição midiática da candidatura; 2) fidelização do eleitor, lembrando os feitos do político por determinado setor e contando com esse voto eternamente; 3) campanha nas ruas, conquistando apoio de lideranças que se convertiam em votos.

O eleitor fidelizado ainda existe, mas em número menor. Em tempos remotos, bastava a um deputado ajudar na construção de um poço artesiano em uma determinada comunidade para garantir o voto daqueles eleitores para sempre. Hoje, como se fosse aquele menino insuportável da propaganda do Tang, o eleitor sempre quer mais. Se não tiver um trabalho constantemente exposto para a localidade, o candidato logo trocará o rótulo de trabalhador pelo de aproveitador e seu voto irá se desmanchar.

Assim como a questão das lideranças. Até pouco tempo atrás, conquistar - seja lá por qual razão - o apoio de um líder comunitário podia garantir 3 mil votos para o candidato no bairro. Hoje vai garantir 500. Essa rotina de participar de dezenas de reuniões de apresentações de propostas para os moradores, reuniões convocadas por determinadas lideranças e etc, parece cada vez mais insuficiente. O processo de convencimento do candidato é lento e diário e o eleitor parece ter cada vez mais horror do político que parece que só aparece em época de eleição.

5) Cada caso é um caso
Sim, cada segmento do eleitorado tem suas particularidades e uma eleição majoritária ainda tem características diferentes da disputa para o legislativo (onde ainda é mais possível se eleger com o apoio de lideranças, ou com uma boa propaganda na TV, ou com a gratidão de um bairro distante de uma cidade do interior). O apoio das lideranças ainda define uma eleição nas cidades pequenas, as lideranças evangélicas tem grande influência sobre o eleitorado e redes sociais não são capazes de mudar o voto do eleitor desconectado - muito mais presentes nas cidades pequenas e pobres.

Mas que tudo mudou, não dá pra negar.

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